O minstrel show

por Alexei Henriques

Hoje falaremos sobre esse entretenimento americano tão famoso no século XIX onde, provavelmente o sapateado americano começou a surgir, mas que carrega consigo uma triste realidade de como os brancos enxergavam os negros naquele tempo e que possui reflexos na sociedade americana ainda hoje.

Uma das primeiras formas de teatro genuinamente americana foi o “minstrel show” (espetáculo de menestréis) com os “blackfaces” (caras pintadas), onde, inicialmente, brancos se pintavam de preto para fazer imitações estereotipadas de negros com muita música, dança, shows de variedades e piadas fortemente racistas. Essa era uma forma de entretenimento muito popular nos EUA do século XIX e acredita-se que o “minstrel show” tenha sido o principal meio de divulgação dessa fase inicial do sapateado americano. A palavra menestrel na Idade Média se referia aos artistas errantes que declamavam, cantavam e se acompanhavam tocando algum instrumento. Mas o menestrel do século XIX era “uma pessoa de uma trupe de comediantes, tipicamente apresentando um programa de melodias, piadas, e imitações de americanos negros, geralmente com o rosto pintado de preto” segundo o Dicionário Merriam-Webster.

Em 1789, o dançarino de hornpipe, John Durang, dançou com tamancos e a cara pintada de preto uma dança que mesclava passos de ballet com danças afro-americanas. Ele é considerado o “pai” dos “minstrel shows” e é o primeiro nativo americano a se tornar conhecido como dançarino. Já em 1829, o artista irlandês Thomas Dartmouth Rice fez um tremendo sucesso cantando e dançando uma versão negra da dança irlandesa no show “Jump Jim Crow” (O Corvo Saltitante) elevando o nível artístico dessa forma de teatro. Então, apesar dos primeiros “blackfaces” remeterem ao século XVIII, foi a partir da década de 30 do século XIX, após o super sucesso do Jim Crow que o “minstrel show” realmente começou a florescer nos EUA. Esse show, altamente racista, foi muito bem sucedido na época e até hoje ele é lembrado na cultura americana. O título dele foi, inclusive, o nome dado informalmente as leis segregacionistas americanas criadas no final do século XIX e que duraram até a década de 60 do século XX. A partir da década de 1840, então, o “minstrel show” fez um grande sucesso em todo o país, se tornando uma das principais formas de entretenimento dos EUA daquela época e chegando a ter companhias viajando pela Europa, porém sempre carregando muito preconceito.

No início, apenas o homem branco fazia esses espetáculos, mas a partir da década de 40 do século XIX, com o dançarino afro-americano chamado Master Juba, os artistas negros começaram a ter mais presença no “minstrel show”, também fazendo shows com muita música e dança. Eles se pintavam de preto para fingirem ser pessoas brancas pintadas de pretos e poderem ser aceitos pela plateia branca. Na virada do século, essa forma de teatro foi perdendo sua popularidade, dando espaço para o “teatro de Vaudeville”. Mas, apesar dessa perda de popularidade, o “minstrel show” só deixou de ser feito a partir da década de 50 do século XX com o crescimento dos movimentos negros. Há muitos filmes da era de ouro de Hollywood, além de programas de TV e até desenho animado onde o “blackface” era usado.

Como o Steven Harper diz em sua apostila feita para o Sindicato da Dança do RJ, “por mais preconceituosas que fossem, essas representações demonstravam pelo menos uma curiosidade dos brancos pelas danças negras, ao ponto de querer buscar inspiração ‘do outro lado’ e até imitá-las, mesmo que com deboche. Dessa forma, ironicamente, os primeiros artistas a ganhar dinheiro com as danças negras foram brancos”. Apesar dessa forma de teatro ser altamente estereotipada e preconceituosa com os negros americanos, a curiosidade pela música e dança que uma etnia tinha pela outra levaram os EUA a criarem novas formas de arte.

Foi em meio a esse cenário que nasceu um dos maiores dançarinos americanos de seu tempo, considerado como o avô do sapateado americano e que, anos antes da abolição da escravidão nos EUA, conseguiu quebrar algumas barreiras raciais: o já mencionado Master Juba. Falarei mais sobre ele no meu próximo texto: “O Avô do Tap”.

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