O sapateado americano e as plantações de batatas

por Alexei Henriques

O sapateado americano é uma mistura de danças africanas com diversos outros estilos e sua principal influência europeia foi o sapateado irlandês. Para falar sobre as plantações de batatas, primeiro irei contar um pouco sobre a história da Irlanda. Começarei nossa história daqui no ano de 1517.

Os irlandeses têm um histórico de conflito e submissão com a Inglaterra de vários séculos e o país é considerado ser a primeira colônia do império britânico. Após a reforma protestante de 1517, o rei da Inglaterra Henrique VIII oficializou, no ano de 1534, a religião anglicana, tornando a relação com os irlandeses, que já não era boa, cada vez mais conflitante, pois a maior parte da população da Irlanda era (e ainda é até hoje) católica. O século XVII, na Irlanda, foi um período sangrento, tomado por conflitos religiosos e de posses de terra. Após a Guerra Civil Inglesa em 1649, o militar e líder político inglês Oliver Cromwell (1599 – 1658), até hoje considerado pelos irlandeses como um monstro, tomou diversas medidas contra os católicos irlandeses consideradas por muitos historiadores como genocidas. Com isso, durante praticamente uma década, quase metade da população irlandesa foi morta ou obrigada a trabalhar nas colônias britânicas da América, Austrália e Ilha de Barbados ao lado dos negros africanos escravizados e dos nativos de cada lugar.

Mesmo após a virada para o século seguinte e, posteriormente, a algumas tentativas quase bem sucedidas de independência da Irlanda, como a Rebelião Irlandesa em 1798 e a vaga no parlamento britânico ocupada (de 1823 a 1829) pelo pacifista irlandês Daniel O’Connel conhecido como “O Grande Libertador”, a Irlanda continuou sendo submissa à coroa britânica com uma população muito pobre e de maioria agrícola. Nas primeiras décadas do século XIX, os irlandeses viviam em condições precárias, obrigados a pagar altos impostos para os ingleses, como a chamada Lei do Milho (Corn Lows), e sobreviviam apenas com o que plantavam. E, nessa época, o que eles tinham para cultivar era basicamente apenas plantação de batatas. Em contraste com a supremacia mundial do império Britânico após a Revolução Industrial, a Irlanda era o país mais pobre de toda a Europa. Por conta disso, desde o século XVIII milhões de irlandeses emigravam de seu país em busca de uma vida melhor no novo continente.

Para piorar ainda mais a situação dos Irlandeses, entre os anos de 1845 a 1849, devida a uma praga que surgiu nas Batatas e as precárias condições em que a população vivia, a Irlanda passou pela maior tragédia já registrada em toda sua história chamada de “Grande Fome”. Mais de três quartos das colheitas chegaram a ser perdidas, mais de um milhão de pessoas morreram de fome ou inanição e mais outro milhão emigraram do país reduzindo a população da Irlanda a quase 25%. Os principais destinos desses emigrantes eram os grandes centros urbanos do nordeste americano como Boston, Filadélfia e Nova York. Muitos irlandeses foram para essas cidades levando consigo sua história e cultura ao novo continente. Até hoje, com aproximadamente 6 milhões de habitantes, a população da Irlanda nunca mais voltou ao nível de antes da fome, de cerca de 8 milhões de pessoas.

A Big Apple, durante o século XIX, tinha uma população pobre com muitos imigrantes. E depois dessa “Grande Fome” na Europa de 1840, a maior população de imigrante de cidade era a irlandesa, que chegavam sem nada para começar a vida do zero. Os irlandeses eram muitas vezes menosprezados pelo restante da população e colocados como culpados pela degradação da cidade. É possível encontrar anúncios de empregos daquela época onde se dizia “Irlandês não”. Por conta dessa grande presença de imigrantes irlandeses e pela grande presença de afro-americanos que chegavam nesse centro ativista abolicionista internacional, o sapateado americano começou a se desenvolver recebendo bastante influências desses dois povos.

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