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O que significa Copasetic e qual sua importância para o tap dance?

Alexei Henriques

O texto de hoje é em homenagem ao meu amigo Pedro Paulo Bravo que, desde 2017, organiza o Festival Copasetic. Esse festival é anual, já tendo acontecido na cidade do Rio de Janeiro, São Paulo e em formato online.

As décadas de 50 e 60 do século passado foram anos duros para os sapateadores americanos que brilharam anos antes. O mercado de trabalho diminuiu muito, o gosto do público estava mudando e o sapateado quase desapareceu. Vale lembrar também que, como já foi dito em outros textos, apesar do sapateado americano ser constantemente associado apenas aos musicais da era de ouro de Hollywood, essa arte nasceu nas ruas de Nova York com o povo negro. E, enquanto a maioria das estrelas do cinema eram brancas, os sapateadores “de raíz”, como diríamos hoje em dia, dançavam em teatros e casa noturnas tendo muito menos dinheiro e prestígio do que aquelas que foram para a indústria cinematográfica. Um dos principais motivos para essa arte não ter desaparecido de vez foi graças a um grupo de sapateadores negros que continuaram na resistência, dançando em bailes anuais e eventos beneficentes, mesmo com escassos trabalhos no sapateado, tendo muitas vezes que trabalhar em outros empregos e vivendo na pobreza. Esse grupo se chamava Copasetics.

Mas para entendermos como esse grupo se formou e o porquê do nome, primeiro preciso falar de Bill Bojangles Robinson. Esse lendário sapateador foi de grande importância para nossa arte e sua morte foi muito marcante para a época (falo mais sobre ele no texto “Bojangles e as quebras de barreiras raciais”). Dez dias após o seu falecimento, em 1949, alguns sapateadores, amigos de Bojangles, formaram um clube com a intensão de “guardar” o sapateado para que ele não fosse esquecido. Esse grupo era formado por alguns dos principais nomes do sapateado da era do swing que dançavam nas casas noturnas americanas nas décadas de 30/40 e que, a partir de então, começaram a ser chamados de a “velha guarda” do sapateado. Foram eles que, mais tarde, se tornaram mestres de sapateadores como Gregory Hines e Brenda Buffalino. O nome que esses sapateadores escolheram para dar ao grupo foi “Copasetics” em homenagem ao Bill Robinson.

Essa palavra, sempre dita por Bojangles dentro da frase “Everything is Copasetic”, era uma gíria muito usada por ele que significava algo como “tudo bem”, “tudo está ótimo”, “Tudo em ordem”, “OK”, “fine”, “That’s all right”. Como é dito no texto “Bojangles e as quebras de barreiras raciais”, Bill Robinson, em seus variados shows, além de sapatear, também cantava, contava piadas e era um contador de histórias. Nesses momentos, muito frequentemente ele usava sua característica frase “Everthing is Copasetic”.

O surgimento da palavra Copasetic não é certo, muitos acreditam ter sida inventada por Bojangles. Segundo o dicionário Merriam, não se sabe exatamente a origem etmológica dessa gíria que provavelmente surgiu no início do sec. XX. Existem algumas possibilidades, dentre elas o francês de Louisiana (coupe-sètique), o italiano (copasetti) ou o hebraico (“hakol beseder” – tudo em ordem).

Na década de 70 e 80, com o ressurgimento do sapateado, o grupo foi constantemente requisitado para dar aulas e participar de eventos e apresentações dentro e fora dos EUA. Dessa forma, eles tiveram uma grande importância no desenvolvimento das novas estrelas do tap que estavam se formando, ajudando na preservação, divulgação e no renascimento dessa dança que estava acontecendo.

Hoje, a American Tap Dance Foundation, fundada por Branda Buffalino, Charles “Honi” Coles (que foi um dos integrantes originais do Copasetics) e Tony Waag, tem o intuito e a missão de preservar e dar continuidade ao legado do Copasetics. Em 1977, Brenda Buffalino produziu e dirigiu um documentário chamado “Great Feats of Feet”, onde é possível conhecer um pouco mais sobre esses sapateadores tão importantes para a história do tap. Segundo o site da fundação, os 21 integrantes originais do grupo são: Charles “Cholly” Atkins, Clayton “Peg Leg” Bates, Paul Black, Roy Branker, Ernest “Brownie” Brown, Charles “Honi” Coles, Chink Collins, Charles “Cookie” Cook, Emory Evans, Francis Goldberg, Frank Goldberg, Milton Larkin, LeRoy Myers, Pete Nugent, Luther Preston, Phace Roberts, John E. Thomas, James Walker, Elmer Waters, Eddie West, e o compositor Billy Strayhorn. E depois, o grupo ainda adquiriu novos membros como Billy Eckstine, Lewis Brown, Curley Hamner, Timmie Rogers, Charlie Shavers, Leslie “Bubba” Gaines, Dizzy Gillespie, James “Buster” Brown, Louis Simms Carpenter, Albert “Gip” Gibson, James “Stump” Cross e Jimmy Wright, além de possuir membros honorários como Willie Bryant, Lionel Hampton, Sammy Davis Jr., os Nicholas Brothers, Chuck Green, Joe Williams e Dick Gregory.

LINKS:

Link para acessar o texto “Bojangles e as quebras de barreiras raciais” –https://poeticasembytes.com/2021/04/20/bojangles-e-as-quebras-de-barreiras-raciais/

Link para acessar o site da American Tap Dance Foundation – https://www.atdf.org/

Link para acessar o site do Festival Copasetic – https://www.festivalcopasetic.com.br/

Referências

Livros:

– LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.

– LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010. 

– MACHADO, Amália e SALLES, Flávio. TAP: A Arte do Sapateado. 1ªed. Rio de Janeiro: Editora Addresses, 2003

– MARTIN, Cintia. Toques: Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2010.

Sites:

– Copasetics. Library of Congress. Disponível em: http://memory.loc.gov/diglib/ihas/loc.music.tdabio.59/default.html. Acesso em 01/2021

– HARPER, Steven. Apostila de conteúdo e referências Para a Prova Teórica de Sapateado. Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https://spdrj.com.br/wp-content/uploads/sites/150/2019/09/APOSTILA-DE-SAPATEADO.pdf. Acesso em 01/2021

– Hill, Constance Valis. Tap Dance in America: A Short History. Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/ihas.200217630/#:~:text=Tap%20dance%20is%20an%20indigenous,United%20States%20in%20the%201700s. Acesso em 01/2021

– Merriam-Webster. Disponível em:

https://www.merriam-webster.com/dictionary/copacetic . Acesso em 01/2021

– MORRISON, Margaret e WAAG, Tony. About Copasetics. American Tap Dance Foundation. Disponível em: https://www.atdf.org/ttt-about-copasetics. Acesso em 01/2021

– The Copasetics. Tap Legacy Foundation. Disponível em: http://taplegacy.org/copasetics/about/

https://www.merriam-webster.com/dictionary/copacetic. Acesso em 01/2021

Bojangles e as quebras de barreiras raciais

por Alexei Henriques

Bill Bojangles Robinson (1878-1949) talvez seja o sapateador americano mais importante da história. Sua importância é tão grande que o dia internacional dessa dança é comemorado no dia 25 de maio, dia do seu nascimento. Há diversos motivos para isso: ele foi muito famoso e admirado por inovar com um estilo próprio que influenciou o sapateado americano permanentemente o trazendo para a meia ponta e possibilitando que mais sons pudessem ser feitos, além de deixá-los com mais clareza e mais leveza e ele ainda quebrou várias barreiras raciais que existiam em sua época. E é um pouco sobre essas barreiras raciais que nós vamos falar hoje. 

Bill Bojangles Robinson perdeu os pais por volta dos 6 anos de idade e foi criado pela avó que chegou a ser escravizada no início da vida. Ele começou a vida artística ainda criança nas ruas, em frente a teatros e também teve outros tipos de trabalhos como caixa de teatro, vendedor de jornal e jockey. Entrou para o vaudeville na década de 1890 e chegou a participar tanto da Guerra Hispano-Americana em 1898 (onde levou um tiro acidental de seu segundo-tenente) quanto da Primeira Guerra Mundial. 

Em 1902 Bojangles formou uma dupla com o artista George W. Cooper e juntos eles dançaram nos circuitos de vaudeville branco e negro. Os vaudevilles eram separados entre os circuitos brancos (de artistas brancos para plateia branca) e os circuitos negros (de artistas negros para plateia negra). Os artistas dos circuitos de vaudeville branco eram melhor remunerados e a maioria dos poucos artistas negros que conseguiram entrar para os circuitos brancos usavam o recurso do blackface para que a plateia pensasse que eles eram brancos pintados de preto. Essa foi a primeira barreira racial quebrada pelo Bill Robinson: a dupla Bojangles e Cooper conseguiu fazer parte desse circuito branco sem precisar utilizar esse artifício. 

Em 1908, Bojangles conheceu o empresário Marty Forkins que o incentivou a formar seu ato solo e ele administrou a carreira de Robinson até o final da sua vida. Para entrar nos circuitos de vaudeville, os artistas normalmente se juntavam com outros artistas formando duplas, trios, quartetos; era muito comum haver irmãos e famílias se apresentando nos teatros. Quem tinha um ato solo era porque já estava com sucesso e, principalmente: esse artista era branco. Essa foi outra barreira racial quebrada por Bojangles, ele foi talvez o primeiro negro a conseguir criar uma carreira solo de sucesso nos circuitos de vaudeville. 

No decorrer dos anos seguintes ele fez muito sucesso em circuitos como Keith e Orpheum, o maior circuito de vaudeville da época e no TOBA, o maior circuito de vaudeville negro. Ele fez turnês por todo os EUA lotando teatros, trabalhava praticamente todos os dias da semana fazendo mais de um show por dia e chegou a ser a estrela principal no Palace Theater em NY, que era considerado o mais importante teatro de vaudeville. Esse teatro pertencia ao circuito Keith, ficava na Broadway, bem em frente a Time Square e ele funciona até hoje (agora com grandes produções musicais da Broadway).

Após muitos anos de turnê pelo país, Bojangles fixou residência no Harlem, em Nova York, no ano de 1928 para participar do musical “Blackbirds”. Ele era a principal atração do musical que fez um enorme sucesso com apresentações lotadas e ficando mais de um ano em cartaz. Foi em “Blackbirds” que o seu número sapateando nas escadas ficou extremamente popular e foi nesse musical também que ele apresenta seu número chamado “Doin’ The New Low-Down”, que hoje se tornou uma coreografia de repertório dançada por muitos sapateadores. A música de mesmo nome foi composta especialmente para Bill Robinson e foi seu solo de estreia na Broadway. 

Nessa época Bojangles, então, já era super popular, aceito tanto no meio dos brancos como no dos negros e ele também era o artista negro mais bem pago do mundo. Quando ele entra para Hollywood, Bojangles passa a se tornar internacionalmente famoso, mas seu sucesso nos EUA já havia acontecido muito antes disso. É importante dizer aqui que, durante as décadas de 30 e 40, a maioria dos melhores sapateadores negros dançavam nas casas noturnas, tão populares àquela época, e poucos conseguiram entrar no cinema, que era predominantemente ocupado por estrelas brancas. 

Seu primeiro filme foi “Dixiana” de 1930 onde ele fez uma participação. Em 1932, no filme “Harlem is Heaven”, Bojangles se torna protagonista e apresenta seu número sapateando na escada que havia feito muito sucesso no musical “Blackbirds”. Esse filme é muitas vezes tido como o primeiro filme com um elenco totalmente negro.  Mas seu sucesso internacional veio mesmo a partir de 1935 com os filmes onde ele dança com aquela que é considerada como a atriz mirim mais famosa de todos os tempos: Shirley Temple. Juntos eles fizeram 4 filmes e seus números mais famosos são as danças onde eles sapateiam nas escadas, pois isso já havia se tornado uma marca de Bojangles. Em um desses filmes, no “The Littlest Rebel” (1935), Bill Robinson dança o “Doin’ The New Low-Down”, seu solo de estreia na Broadway, mas com uma outra música. A química de Bojangles com Shirley Temple foi muito boa, tanto dentro quanto fora das telonas. Ele possuía muito orgulho dela e ela muito respeito e admiração por ele. 

Naquele tempo era proibido que um artista negro dançasse ou contracenasse com uma artista branca nos filmes. Mas, como Shirley Temple era criança, essa parceria acabou sendo permitida e os dois se tornaram, então, os primeiros parceiros de dança inter-racial de Hollywood e foi a primeira vez que um personagem negro se tornava responsável por uma criança branca no cinema. Essa foi outra importante barreira racial quebrada por Bojangles.  Em algumas salas de cinema do sul dos EUA, as cenas de muito desses filmes em que Bojangles contracenava com Shirley Temple foram cortadas por conta desse preconceito da época. 

Quando Bill Robinson dançava no vaudeville, seu traje típico era bem elegante, com fraque ou terno, luvas, cartola e bengala. Sua intenção era elevar a condição do artista negro, tirando-o do estereótipo do negro tribal. Mas quando ele foi para o cinema, seus personagens eram quase sempre de escravo ou serviçal. Seus papeis eram, muitas vezes, estereótipos racistas, e Bojangles acabou sendo muito criticado por isso. Ele disse uma vez que aceitara os papeis, pois era preciso dar um passo atrás para ir à frente. Ele tentou se desvencilhar desses trajes simples e chegou a ser cogitado a dançar com Eleonor Powell, mas o par acabou não acontecendo. No longa chamado “Cafe Metropole” (1937), ele consegue gravar um número com o traje elegante, característicos dele no vaudeville, num filme com elenco branco. Mas essa cena foi cortada nos últimos momentos de edição, por conta desse tabu e do medo que se tinha de colocar a pessoa negra num patamar mais elevado. Um dos poucos filmes que ele consegue fugir dos estereótipos racistas é “Hooray for Love” de 1935, onde ele dança com a sapateadora Jeni Le Gon. 

Em 1943, Bojangles protagoniza seu 14º e último filme chamado “Stormy Weather”. Esse longa, apesar de também carregar alguns estereótipos, teve uma relevância para a conscientização da importância da cultura afro-americana e sua história é quase uma homenagem ao Bill Robson, onde ele faz um personagem levemente baseado em sua própria vida. Falo um pouco mais sobre um número de dança específico desse filme no texto “O Melhor Número de Dança da História”. 

Fora das telas, durante as décadas de 30 e 40, Bojangles esteve muito presente nas casas noturnas do Harlem como o Cotton Club, além de participar de vários shows da Broadway, gravações e programas de rádio e televisão. Em seus shows, Robinson, além de sapatear, também cantava, usava sua habilidade de fazer som de trompete com a boca, contava piadas e contava histórias. Ele era muito carismático, bem humorado, sempre com aquele sorriso típico dele que conquistava a plateia. Nessas contações de história, ele sempre usava sua famosa frase: “Everything is Copasetic”. Isso significava algo como “está tudo bem”, “tudo certo”, “tudo ok”. Após a sua morte, vários sapateadores se juntaram e formaram um importante grupo com o nome “Copasetics” para que a memória de Bojangles não fosse esquecida, falarei um pouco mais sobre esse grupo em breve.

Em 1939, Bojangles fez parte de um musical chamado “The Hot Mikado” que, além de ter ficado em cartaz na Broadway, também fez parte da Feira Mundial de Nova York que acontecia naquele ano, sendo um dos maiores sucessos da feira. E em 1940, no musical chamado “All in Fun”, Robinson faz outro marco, se tornando o primeiro afro-americano a estrelar como principal em um musical totalmente branco na Broadway. Foi um marco importante, apesar do musical não ter feito sucesso. 

Bojangles foi o artista negro mais bem pago do mundo na primeira metade do século XX. Mas, apesar disso, ele morreu pobre e cheio de dívidas. Isso porque Bojangles se sentia responsável pela comunidade em que vivia, ele doava muito dinheiro e foi famoso por sua grande generosidade. Ele ajudou inúmeros artistas (negros e brancos), enfermos, instituições de caridade e organizações locais. Ele realizou mais de 3000 ações beneficentes e, apesar de ter uma grande carga de trabalho, não se recusava a comparecer aos eventos beneficentes. 

Além dessas doações, Bojangles também ajudou em melhorias para o bairro do Harlem, pagando para construírem um semáforo perto de uma escola e também ajudando a construir um pequeno parque com brinquedos para crianças, próximo ao local onde ele morava. Hoje o parque recebe o nome de Bojangles e, desde a década de 1990, há um mural ilusionista com a imagem desse grande artista.

Por conta de todas essas contribuições filantrópicas, Robinson foi nomeado prefeito honorário de Harlem na década de 30. E ele usou essa influência para salvar a histórica “Árvore da Esperança” que ficava em frente ao Lafayette Theater. Havia uma superstição que dizia que o artista que esfregasse nessa árvore ganhava muita sorte. A árvore foi destruída, mas Bojangles conseguiu preservar o toco de almo do tronco da árvore com uma placa comemorativa. Ele também foi membro vitalício de associações de policiais e conseguiu persuadir o Departamento de Polícia de Dallas a contratar seu primeiro policial negro. Fã de beisebol, Robinson era mascote da liga principal do New York Giants e ele co-fundou, em 1936, a equipe do New York Black Yankees com sede no Harlem.

Bojangles faleceu dia 25 de novembro de 1949 aos 71 anos. No dia do seu funeral, as escolas do Harlem ficaram fechadas como forma de luto, seu caixão foi carregado do Harlem até o cemitério Evergreens, no Brooklin, descendo a Broadway e passando pela Time Square. Estima-se que mais de um milhão de pessoas acompanharam o cortejo, dentre elas vários grandes artistas e políticos famosos, tendo sido o maior funeral da história de Nova York. 

Essas foram algumas das contribuições de Bojangles. Ele foi de extrema importância para o sapateado americano e para a cultura norte-americana de forma geral. Por isso, então, que desde 1989 comemora-se o dia internacional do sapateado no dia de seu nascimento: dia 25 de maio.

Links:

Vídeo com o número de sapateado na escada do filme “Harlem is Heaven” de 1932 – https://www.youtube.com/watch?v=vj1KYaCIA5o


Vídeo de Bill Bojangles com Shirley Temple no filme “Little Colonel” de 1935 – https://www.youtube.com/watch?v=wtHvetGnOdM

Documentário televisivo de 1997 do programa “Biography” produzido pela “A&E Networks” sobre Bill Bojangles – https://www.youtube.com/watch?v=UWtImcRU_ug

Texto mencionado: “O Melhor Número de Dança da História” – https://poeticaembytes.wordpress.com/2020/09/22/o-melhor-numero-de-danca-da-historia/

Referências:

Livros:

– LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.

– LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010.

– MACHADO, Amália e SALLES, Flávio. TAP: A Arte do Sapateado. 1ªed. Rio de Janeiro: Editora Addresses, 2003

– MARTIN, Cintia. Toques: Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2010.

Sites:

– Blackbirds of 1928. Internet Broadway Database. Disponível em: https://www.ibdb.com/broadway-production/blackbirds-of-1928-10390 . Acesso em 10/2020

– Black Work Broadway. Disponível em: https://blackworkbroadway.com/Lew-Leslie-s-Blackbirds-1930 . Acesso em 10/2020

BLAIR, Elizabeth. Shirley Temple And Bojangles: Two Stars, One Lifelong Friendship. National Public Radio. Disponível em: https://www.npr.org/2014/02/14/276986764/shirley-temple-and-bojangles-two-stars-one-lifelong-friendship . Acesso em 10/2020

– ESCHNER, Kat. Three Ways Bill “Bojangles” Robinson Changed Dance Forever. Smithsonian Magazini. Disponível em:

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/bill-robinson-king-of-tap-180963332/ . Acesso em 10/2020

– HARPER, Steven. Apostila de conteúdo e referências Para a Prova Teórica de Sapateado. Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https://spdrj.com.br/wp-content/uploads/sites/150/2019/09/APOSTILA-DE-SAPATEADO.pdf . Acesso em 10/2020

– Hill, Constance Valis. Tap Dance in America: A Short History. Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/ihas.200217630/#:~:text=Tap%20dance%20is%20an%20indigenous,United%20States%20in%20the%201700s. Acesso em 10/2020

-PADGETT, Ken. Bill Bojangles Robinson (1878-1949). Blackface!. Disponível em: http://black-face.com/Bill-Bojangles-Robinson.htm . Acesso em 10/2020

Documentários:

– AMERICAN TAP. Direção: Mark Wilkinson. Produção de Annunziata Gianzero, Rayne Marcusm e Elka Samuels Smith. Estados Unidos: Ivy Media Group Inc., 2018.

– BILL BOJANGLES ROBINSON. Programa de TV: Biography. Produzido pela “A&E Networks”, 1997.

O avô do TAP

por Alexei Henriques

O sapateado americano nasceu nas ruas de Nova York com influências de danças afro-americanas e de danças europeias como a Juba Dance e o sapateado irlandês. Metade da população de Manhattan no século XIX era de negros e imigrantes irlandeses o que fez com que o sapateado americano começasse a brotar principalmente dentro do minstrel show, a principal forma de entretenimento do americano daquele tempo. Foi lá que o blackface surgiu. Pessoas brancas pintavam suas caras de preto para representar pessoas negras de maneira extremamente racista e fazer piada com isso. Foi nessa época que surgiu também o primeiro a dançar num estilo que lembra nosso sapateado americano atual, o Master Juba.

Nascido como homem livre em 1825, William Henry Lane, o Master Juba, conhecido também como Boz Juba, foi um dos primeiros artistas negros a se apresentar para uma plateia branca além de ser o único a fazer parte de uma companhia branca de menestrel. Para entrar nessa companhia, ele começou se pintando de preto para fingir que era um branco que se pintava de preto.

Juba começou a carreira na adolescência dançando num salão de dança chamado “Almack’s Dance Hall”, no Five Points, um bairro pobre de Manhattan, e já na década de 1840 entrou para o circuito de minstrel show fazendo muito sucesso em Nova York. Quero mencionar aqui que o Five Points, situado no Lower Manhattan, perto de onde hoje é o China Town e o Little Italy, foi um lugar de extrema pobreza, com uma alta densidade demográfica, doenças, gangsters, violência e foi considerado a favela com a maior taxa de mortalidade do mundo no século XIX. Muitos afro-americanos moravam nesse lugar e mais da metade dos moradores de Five Points, após a Grande Fome da Europa, era de imigrantes irlandeses. O escritor britânico Charles Dickens quando esteve em Nova York, em 1842, ficou muito impressionado com a pobreza do bairro de Five Points. Charles Dickens também frequentou o salão onde Master Juba dançava e escreveu dizendo que este era o maior dançarino que ele já havia visto em toda vida.

Master Juba desafiou e derrotou os principais dançarinos brancos, incluindo o mais famoso de sua época, o John Diamond Rice. Por conta disso, Juba foi proclamado o “Rei de todos os dançarinos”. Com todo esse sucesso nos EUA, William Henry Lane fez turnê na Europa e seu auge veio em 1848 quando sua trupe de menestrel foi para as Ilhas Britânicas, recebendo grandes elogios dos críticos dessa terra e chegando a se apresentar para a rainha da Inglaterra. Dizia-se que nunca haviam visto nada parecido. Foi na Inglaterra, inclusive, que Master Juba ganhou o apelido de Boz Juba. A viagem de Charles Dickens aos EUA foi registrada por ele no chamado American Notes e, ao ser publicada, Dickens usou o pseudônimo “Boz”. Quando Master Juba chegou na Inglaterra todos diziam que ele era o Juba do Boz (Boz Juba) para se referir ao dançarino que Dickens escreveu, daí vem esse outro apelido dele.

Porém, apesar de todo esse sucesso, Willim Hanry Lane acabou morrendo por volta dos 27 anos, em 1852 ou 53 (não se sabe ao certo) provavelmente pelo excesso de trabalho e desnutrição. Como Mr. Juba viveu numa época em que a filmagem ainda não havia sido inventada, não temos registro audiovisual dele, mas temos relatos escritos que comprovam seu enorme sucesso e influência mesmo numa época altamente preconceituosa onde a escravidão ainda era realidade para muitos no país dele. William Henry Lane mesclava principalmente a dança irlandesa, pois era a dança predominante nos minstrel shows de Manhattan, com as danças afro-americanas, suas raízes, e influenciou as novas formas de dança americanas que viriam a surgir nessa época, como o jazz e o sapateado. Ele é considerado o melhor dançarino de sua época, sendo o mais influente do sec. XIX e o avô do sapateado norte-americano.

Referências:

Livros:

  • FRANCIS, André. Jazz. Tradução de Antonio de Padua Danesi. 1ªed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1987.
  • LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.
  • LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010. 
  • MACHADO, Amália e SALLES, Flávio. TAP: A Arte do Sapateado. 1ªed. Rio de Janeiro: Editora Addresses, 2003
  • MARTIN, Cintia. Toques: Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2010.
  • STEARNS, Marshall. A História do Jazz. Tradução de José Geraldo Vieira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964.

Sites:

Documentários:

  • AMERICAN TAP. Direção: Mark Wilkinson. Produção de Annunziata Gianzero, Rayne Marcusm e Elka Samuels Smith. Estados Unidos: Ivy Media Group Inc., 2018.
  • JAZZ. Direção: Ken Burns. Produção de Ken Burns e Lynn Novivk. Estados Unidos: Florentine Films e Weta, Washington, DC, em associação com a BBC, 2000.

O minstrel show

por Alexei Henriques

Hoje falaremos sobre esse entretenimento americano tão famoso no século XIX onde, provavelmente o sapateado americano começou a surgir, mas que carrega consigo uma triste realidade de como os brancos enxergavam os negros naquele tempo e que possui reflexos na sociedade americana ainda hoje.

Uma das primeiras formas de teatro genuinamente americana foi o “minstrel show” (espetáculo de menestréis) com os “blackfaces” (caras pintadas), onde, inicialmente, brancos se pintavam de preto para fazer imitações estereotipadas de negros com muita música, dança, shows de variedades e piadas fortemente racistas. Essa era uma forma de entretenimento muito popular nos EUA do século XIX e acredita-se que o “minstrel show” tenha sido o principal meio de divulgação dessa fase inicial do sapateado americano. A palavra menestrel na Idade Média se referia aos artistas errantes que declamavam, cantavam e se acompanhavam tocando algum instrumento. Mas o menestrel do século XIX era “uma pessoa de uma trupe de comediantes, tipicamente apresentando um programa de melodias, piadas, e imitações de americanos negros, geralmente com o rosto pintado de preto” segundo o Dicionário Merriam-Webster.

Em 1789, o dançarino de hornpipe, John Durang, dançou com tamancos e a cara pintada de preto uma dança que mesclava passos de ballet com danças afro-americanas. Ele é considerado o “pai” dos “minstrel shows” e é o primeiro nativo americano a se tornar conhecido como dançarino. Já em 1829, o artista irlandês Thomas Dartmouth Rice fez um tremendo sucesso cantando e dançando uma versão negra da dança irlandesa no show “Jump Jim Crow” (O Corvo Saltitante) elevando o nível artístico dessa forma de teatro. Então, apesar dos primeiros “blackfaces” remeterem ao século XVIII, foi a partir da década de 30 do século XIX, após o super sucesso do Jim Crow que o “minstrel show” realmente começou a florescer nos EUA. Esse show, altamente racista, foi muito bem sucedido na época e até hoje ele é lembrado na cultura americana. O título dele foi, inclusive, o nome dado informalmente as leis segregacionistas americanas criadas no final do século XIX e que duraram até a década de 60 do século XX. A partir da década de 1840, então, o “minstrel show” fez um grande sucesso em todo o país, se tornando uma das principais formas de entretenimento dos EUA daquela época e chegando a ter companhias viajando pela Europa, porém sempre carregando muito preconceito.

No início, apenas o homem branco fazia esses espetáculos, mas a partir da década de 40 do século XIX, com o dançarino afro-americano chamado Master Juba, os artistas negros começaram a ter mais presença no “minstrel show”, também fazendo shows com muita música e dança. Eles se pintavam de preto para fingirem ser pessoas brancas pintadas de pretos e poderem ser aceitos pela plateia branca. Na virada do século, essa forma de teatro foi perdendo sua popularidade, dando espaço para o “teatro de Vaudeville”. Mas, apesar dessa perda de popularidade, o “minstrel show” só deixou de ser feito a partir da década de 50 do século XX com o crescimento dos movimentos negros. Há muitos filmes da era de ouro de Hollywood, além de programas de TV e até desenho animado onde o “blackface” era usado.

Como o Steven Harper diz em sua apostila feita para o Sindicato da Dança do RJ, “por mais preconceituosas que fossem, essas representações demonstravam pelo menos uma curiosidade dos brancos pelas danças negras, ao ponto de querer buscar inspiração ‘do outro lado’ e até imitá-las, mesmo que com deboche. Dessa forma, ironicamente, os primeiros artistas a ganhar dinheiro com as danças negras foram brancos”. Apesar dessa forma de teatro ser altamente estereotipada e preconceituosa com os negros americanos, a curiosidade pela música e dança que uma etnia tinha pela outra levaram os EUA a criarem novas formas de arte.

Foi em meio a esse cenário que nasceu um dos maiores dançarinos americanos de seu tempo, considerado como o avô do sapateado americano e que, anos antes da abolição da escravidão nos EUA, conseguiu quebrar algumas barreiras raciais: o já mencionado Master Juba. Falarei mais sobre ele no meu próximo texto: “O Avô do Tap”.

O sapateado americano e as plantações de batatas

por Alexei Henriques

O sapateado americano é uma mistura de danças africanas com diversos outros estilos e sua principal influência europeia foi o sapateado irlandês. Para falar sobre as plantações de batatas, primeiro irei contar um pouco sobre a história da Irlanda. Começarei nossa história daqui no ano de 1517.

Os irlandeses têm um histórico de conflito e submissão com a Inglaterra de vários séculos e o país é considerado ser a primeira colônia do império britânico. Após a reforma protestante de 1517, o rei da Inglaterra Henrique VIII oficializou, no ano de 1534, a religião anglicana, tornando a relação com os irlandeses, que já não era boa, cada vez mais conflitante, pois a maior parte da população da Irlanda era (e ainda é até hoje) católica. O século XVII, na Irlanda, foi um período sangrento, tomado por conflitos religiosos e de posses de terra. Após a Guerra Civil Inglesa em 1649, o militar e líder político inglês Oliver Cromwell (1599 – 1658), até hoje considerado pelos irlandeses como um monstro, tomou diversas medidas contra os católicos irlandeses consideradas por muitos historiadores como genocidas. Com isso, durante praticamente uma década, quase metade da população irlandesa foi morta ou obrigada a trabalhar nas colônias britânicas da América, Austrália e Ilha de Barbados ao lado dos negros africanos escravizados e dos nativos de cada lugar.

Mesmo após a virada para o século seguinte e, posteriormente, a algumas tentativas quase bem sucedidas de independência da Irlanda, como a Rebelião Irlandesa em 1798 e a vaga no parlamento britânico ocupada (de 1823 a 1829) pelo pacifista irlandês Daniel O’Connel conhecido como “O Grande Libertador”, a Irlanda continuou sendo submissa à coroa britânica com uma população muito pobre e de maioria agrícola. Nas primeiras décadas do século XIX, os irlandeses viviam em condições precárias, obrigados a pagar altos impostos para os ingleses, como a chamada Lei do Milho (Corn Lows), e sobreviviam apenas com o que plantavam. E, nessa época, o que eles tinham para cultivar era basicamente apenas plantação de batatas. Em contraste com a supremacia mundial do império Britânico após a Revolução Industrial, a Irlanda era o país mais pobre de toda a Europa. Por conta disso, desde o século XVIII milhões de irlandeses emigravam de seu país em busca de uma vida melhor no novo continente.

Para piorar ainda mais a situação dos Irlandeses, entre os anos de 1845 a 1849, devida a uma praga que surgiu nas Batatas e as precárias condições em que a população vivia, a Irlanda passou pela maior tragédia já registrada em toda sua história chamada de “Grande Fome”. Mais de três quartos das colheitas chegaram a ser perdidas, mais de um milhão de pessoas morreram de fome ou inanição e mais outro milhão emigraram do país reduzindo a população da Irlanda a quase 25%. Os principais destinos desses emigrantes eram os grandes centros urbanos do nordeste americano como Boston, Filadélfia e Nova York. Muitos irlandeses foram para essas cidades levando consigo sua história e cultura ao novo continente. Até hoje, com aproximadamente 6 milhões de habitantes, a população da Irlanda nunca mais voltou ao nível de antes da fome, de cerca de 8 milhões de pessoas.

A Big Apple, durante o século XIX, tinha uma população pobre com muitos imigrantes. E depois dessa “Grande Fome” na Europa de 1840, a maior população de imigrante de cidade era a irlandesa, que chegavam sem nada para começar a vida do zero. Os irlandeses eram muitas vezes menosprezados pelo restante da população e colocados como culpados pela degradação da cidade. É possível encontrar anúncios de empregos daquela época onde se dizia “Irlandês não”. Por conta dessa grande presença de imigrantes irlandeses e pela grande presença de afro-americanos que chegavam nesse centro ativista abolicionista internacional, o sapateado americano começou a se desenvolver recebendo bastante influências desses dois povos.

Referências:

Livros

– LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.

– LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010. 

– MACHADO, Amália e SALLES, Flávio. TAP: A Arte do Sapateado. 1ªed. Rio de Janeiro: Editora Addresses, 2003

– MARTIN, Cintia. Toques: Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2010.

– STEARNS, Marshall. A História do Jazz. Tradução de José Geraldo Vieira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964.

Sites:

– Daniel O’Connel. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Daniel-OConnell . Acesso em 07/2020

– Daniel O’Connel. Clary Count Library. Disponível em: https://www.clarelibrary.ie/eolas/coclare/people/daniel.htm. Acesso em 07/2020

– GRIFFIN, Noel M. How many died during Cromwell’s campaign?. History Ireland. Disponível em: https://www.historyireland.com/cromwell/how-many-died-during-cromwells-campaign/. Acesso em 07/2020

– HARPER, Steven. Apostila de conteúdo e referências Para a Prova Teórica de Sapateado. Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https://spdrj.com.br/wp-content/uploads/sites/150/2019/09/APOSTILA-DE-SAPATEADO.pdf

– Hill, Constance Valis. Tap Dance in America: A Short History. Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/ihas.200217630/#:~:text=Tap%20dance%20is%20an%20indigenous,United%20States%20in%20the%201700s. Acesso em 07/2020

– HOGAN, Liam. The Irish in the Anglo-Caribbean: servants or slaves?. History Ireland. Disponível em: https://www.historyireland.com/volume-24/the-irish-in-the-anglo-caribbean-servants-or-slaves/. Acesso em 07/2020

– MOKYR, Joel. Great Famine. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/event/Great-Famine-Irish-history . Acesso em 07/2020

– Penal Laes. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/event/Penal-Laws. Acesso em 07/2020

– PIRULLA. História da Irlanda (PARTE 2): Ingleses, Domínio Protestante, Plantations, Grande Fome. Youtube, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QkbqDIiWRPs. Acesso em 07/2020

– ROGERS, Jon. The Big Grapple. The Sun. Disponível em: https://www.thesun.co.uk/news/7239140/real-gangs-of-new-york-five-points-images/

– TORINO, Cristina. Riverdance e sua Origem – Dança Irlandesa. Portal Educação da Prefeitura de Taubaté. Disponível em: http://taubate.educaon.com.br/wp-content/uploads/2020/05/DAN%C3%87A-SAPATEADO-Professora-Cristina-Atividade-25.pdf. Acesso em 07/2020

– Young, Patrick. Five Points on the Edge of the Draft Riots. Long Island Wins. Disponível em: https://longislandwins.com/columns/immigrants-civil-war/five-points-on-the-edge-of-the-draft-riots/. Acesso em 07/2020

Documentários:

– AMERICAN TAP. Direção: Mark Wilkinson. Produção de Annunziata Gianzero, Rayne Marcusm e Elka Samuels Smith. Estados Unidos: Ivy Media Group Inc., 2018.

O sapateado americano e suas influências africanas

por Alexei Henriques

O sapateado americano surgiu numa mistura de diversas danças, oriundas principalmente da África e da Europa. Em relação à Europa, as principais danças que influenciaram o sapateado americano foram as danças irlandesas como a Reel, o Hornpipe e a Irish Jig, sem contar a dança do norte da Inglaterra Lancashire Clog. Mas, apesar dessa influência britânica e apesar dessa dança ter ficado mundialmente famosa com muitas estrelas brancas de Hollywood, o sapateado americano nasceu nas ruas dos Estados Unidos com o povo negro, recebendo influências diretas de danças afro-americanas da época.

Os primeiros africanos escravizados a chegarem nos EUA remetem ao ano de 1619. Desde então, muitos negros africanos foram levados ao novo continente para serem escravizados, vindo de variadas regiões da costa oeste africana, desde onde hoje é o Senegal até Angola, com línguas, povos, costumes e culturas diferentes. A região Sul dos EUA, por ser uma região com o solo mais fértil do que o Norte, tinha muita plantação e consequentemente mais mão de obra escrava. Os territórios americanos passaram por muitas mudanças, fazendo parte de colônias espanholas, francesas, holandesas e britânicas ao longo desses séculos e cada um desses países trazia escravos de diferentes lugares da África e os obrigavam a praticarem seus costumes e religiões, como o catolicismo latino e o protestantismo britânico. Além disso, os EUA também recebiam muitos escravos proveniente das ilhas caribenhas, pois esses lugares também foram colônias da França, Inglaterra e Espanha.

A maioria dos escravizados norte-americanos provinha do Senegal, da costa da Guiné, do delta do Niger e do Congo. Alguns povos africanos que tiveram grande importância para o nascimento de novos estilos de música e dança na América são os Iorubas (região da atual Nigéria), os Ashantis (região da atual Gana) e os Daomenos (região do atual Benim). Foi com os escravos daomenos, trazido pelos colonizadores franceses, que o vudu começou a florescer, principalmente no Haiti e no estado de Lousianna, onde se encontra a cidade de New Orleans, berço do jazz.

De 1718 a 1764, o estado de Luisiana foi de possessão francesa até ser cedida à Espanha. Após 36 anos de governo espanhol, Napoleão tomou a terra de volta em 1800 e em 1803 vendeu o estado para os EUA, que fez com que a cidade de Nova Orleans deixasse de ser católica para ser protestante e que também se tornasse uma das mais importantes cidades da América do Norte durante o século XIX. Com a fusão do vudu, da religião católica trazida pelos colonizadores latinos, dos cantos religiosos das igrejas negras protestante, dos ritmos africanos, da canção de trabalho dos escravos, das marchas de fanfarra e das danças afro-americanas do século XIX que, após o surgimento do blues e do ragtime, o jazz nasceu. E junto com esse estilo de música tipicamente americano começava a nascer também o sapateado. O jazz prioriza o improviso, a liberdade e os novos experimentos; um estilo de vida que os negros e os imigrantes buscavam. O sapateado também reflete isso, há muitos estilos e liberdade para criar novos ritmos, além do improviso também ser um elemento muito presente. O sapateado foi muito influenciado por danças afro-americanas oriundas do jazz como as danças Buck and Wing (Bill Bojangle se dizia um Buck Dancer) e Jig onde, mais tarde, elas evoluíram para o Foxtrot, Charleston e Lindy Hop.

Algumas outras danças afro-americanos precursoras do sapateado que podemos citar são o Cake Walk (essa dança nasceu nas fazendas do sul dos EUA, onde os negros da época imitavam e satirizavam a dança e os estilos da aristocracia, o melhor dançarino ganhava um bolo de presente do seu senhor, por isso adquiriu esse nome), Ring Shout (mais voltadas a cultos religiosos) e a Juba Dance, um tipo de dança onde existe muito fortemente o elemento rítmico, a marca do tempo com os pés, palmas e batidas no corpo, há círculos, desafios e competições (daí vem o nome do sapateador Master Juba). Juba é uma palavra originária do oeste africano, mas foi uma dança muito popular entre os negros americanos do sul. A palavra, além de ser o nome de uma dança, é também o nome da capital do Sudão do Sul, o nome de um rio que passa pela Etiópia e Somália e possui significados como “rei” ou “comando”, daí vem a palavra “juba do leão”. De modo geral, ao contrário das danças irlandesas, que são rígidas, eretas e elegantes, as danças negras africanas são mais voltadas para o chão, para a terra, a natureza, possuindo mais swing e mais balanço. Apesar da forte influência europeia, com grande destaque para as danças irlandesas, foi principalmente com o povo negro que o sapateado americano nasceu e se desenvolveu. Praticamente toda a música e a dança nascida nos EUA possui influências diretas dos povos africanos escravizados que perduram até os dias de hoje.

Referências

Livros:

– FRANCIS, André. Jazz. Tradução de Antonio de Padua Danesi. 1ªed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1987

– LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.

– LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010. 

– MACHADO, Amália e SALLES, Flávio. TAP: A Arte do Sapateado. 1ªed. Rio de Janeiro: Editora Addresses, 2003

– MARTIN, Cintia. Toques: Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2010.

– STEARNS, Marshall. A História do Jazz. Tradução de José Geraldo Vieira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964.

Sites:

– Buck and Wing. Street Swing. Disponível em: https://www.streetswing.com/histmain/z3buckw1.htm. Acessado em 07/2020

– FRANK, Rusty. Tap Dance. Enciclopedia Britannica. Disponível em: – https://www.britannica.com/art/tap-dance. Acessado em 07/2020

– HARPER, Steven. Apostila de conteúdo e referências Para a Prova Teórica de Sapateado. Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https://spdrj.com.br/wp-content/uploads/sites/150/2019/09/APOSTILA-DE-SAPATEADO.pdf. Acessado em 07/2020

– Hill, Constance Valis. Tap Dance. Encyclopedia.com. Disponível em: https://www.encyclopedia.com/history/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/tap-dance. Acessado em 07/2020

– Hill, Constance Valis. Tap Dance in America: A Short History. Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/ihas.200217630/#:~:text=Tap%20dance%20is%20an%20indigenous,United%20States%20in%20the%201700s. Acessado em 07/2020

– HOLMES, Vance. All About Tap Dance. Theatre Dance. Disponível em: https://www.theatredance.com/tap/. Acessado em 07/2020

– Juba Dance. Street Swing. Disponível em: https://www.streetswing.com/histmain/z3juba.htm. Acessado em 07/2020

Documentários:

– AMERICAN TAP. Direção: Mark Wilkinson. Produção de Annunziata Gianzero, Rayne Marcusm e Elka Samuels Smith. Estados Unidos: Ivy Media Group Inc., 2018.

– JAZZ. Direção: Ken Burns. Produção de Ken Burns e Lynn Novivk. Estados Unidos: Florentine Films e Weta, Washington, DC, em associação com a BBC, 2000.

As 7 melhores duplas de sapateado nos filmes americanos

por Alexei Henriques

Na época do Vaudeville, no início do século XX, era muito comum um artista se juntar com outro para tentar fazer sucesso nos teatros americanos. Com isso, muitas duplas surgiram e, quando os musicais de Hollywood começaram aparecer, vários desses artistas foram para o cinema. Existem várias duplas que ficaram famosas nos musicais de sapateado de Hollywood e hoje falaremos sobre as 7 melhores duplas do sapateado nos filmes americanos segundo eu mesmo, rsrs. Então, quem quiser, pode escrever nos comentários caso ache que eu deveria ter mencionado outras duplas. Não vou falar aqui as duplas numa ordem de melhor ou pior. Para não haver dúvidas, falarei em ordem cronológica, levando em conta o ano da primeira aparição da dupla no cinema:

1 – Para abrir nossa lista, vou começar falando sobre os Nicholas Brothers. No texto “O melhor número de dança de todos os tempos” eu falo um pouco mais sobre essa dupla de irmãos sapateadores. Fayard e Harold começaram no cinema em 1932, quando eles ainda eram menores de idade. Alguns de seus principais números são o “The Lucky Number” do filme “Black Network” (1936), “Be a Clown” dançado com Gene Kelly no filme “The Pirate” (1948) e o famoso número “Jumpin Jive” do filme “Stormy Weather”.

Vídeo dos Nicholas Brothers no número “The Lucky Number” do filme “The Black Network” (1936) – https://www.youtube.com/watch?v=U0oiSqaEbms

Aperte aqui para acessar o texto “O Melhor Número de Dança da História” onde falo um pouco mais sobre a dupla e onde você poderá ver o famoso número “Jumpin Jive” – https://poeticasembytes.com/2020/09/22/o-melhor-numero-de-danca-da-historia/

2 – Nossa próxima dupla é possivelmente a dupla de dançarinos mais famosa de Hollywood: Fred Astaire e Ginger Rogers. Um dos pontos fortes da dança de Fred Astaire é, além do sapateado, claro, justamente a dança de salão. Em seus filmes, ele muitas vezes está acompanhado por uma dama, sendo Ginger Rogers sua principal parceira. Juntos eles fizeram 10 filmes, 9 com os estúdios da recém lançada RKO, sendo o “Picolino” (1935), com a música “Cheek to Cheek” um de seus mais famosos números. Seus filmes tiveram muita importância para o crescimento do estúdio. Fred se inspirou nos sapateadores negros do vaudeville trazendo muito charme e elegância ao sapateado, além de juntar essa dança dos pés com a dança de salão e trazer algumas inovações na maneira como seus números de dança eram filmados. O primeiro filme da dupla foi “Flying Down to Rio” (Voando Para o Rio) de 1933. Além desse e do “Picolino”, alguns filmes importantes da dupla a serem destacados são “Vamos Dançar”, “Alegre Divorciada” e “Ritmo Louco”. Em 1939 a dupla fez sua última aparição nos filmes da RKO e só voltaram a dançar juntos de novo apenas mais uma vez no filme “The Barkleys of Broadway” em 1949, o único filme colorido dos dois. Durante a década de 40, Ginger Rogers, que fez quase 100 filmes ao longo de sua carreira, fez longas mais dramáticos, chegando a ganhar o Oscar de melhor atriz em 1941 no filme “Kitty Foyle”.

Vídeo do Fred Astaire e Ginger Rogers no número “Swing Time” do filme “Ritmo Louco” (1936) – https://www.youtube.com/watch?v=mxPgplMujzQ

3 – A dupla que eu irei falar agora é composta por aquele que é considerado como o sapateador mais importante de todos os tempos e aquela que foi uma das mais famosas atrizes de seu tempo: Bill Bojangles Robson e Shirley Temple. É importante você saber que o dia internacional do sapateado é em homenagem a esse grande artista e a criança prodígio que dançava com ele foi a grande responsável por salvar os estúdios da Fox da falência, sendo considerada a atriz mirim mais famosa de todos os tempos. Bojangles e Shirley Temple foram o primeiro casal interracial de Hollywood e foi a primeira vez que um negro ficou responsável por uma criança branca no cinema. Naquele tempo havia várias leis segregacionistas e, em uma delas, era proibido que pessoas negras dançassem ou contracenassem com brancos. Mas como Shirley Temple era uma criança, essa junção acabou sendo permitida e juntos eles fizeram 4 filmes: “The Little Colonel”, “The Littlest Rebel”, “Rebecca of Sunnybeak Farm” e “Just Around the corner”.

Vídeo de Bojangles e Shirley Temple no filme “A Pequena Rebelde” (1935) – https://www.youtube.com/watch?v=776oLm9GXxQ

4 – Como Fred Astaire era o “rei” do sapateado a dois, nossas duas próximas duplas também serão com ele. Uma das grandes sapateadoras que fizeram par com Astaire foi a Eleonor Powell. Antes de ir à Hollywood, Powell passou pelo vaudeville e a Broadway. E já naquele tempo, ela tinha o apelido de “melhor sapateadora do mundo”. Sua primeira aparição no cinema foi em 1930, mas foi no filme Broadway Melody de 1936 com o número “Fascinating Rhythm” que Powell obteve seu maior prestígio salvando os estúdios da MGM da falência com seu deslumbrante entusiasmo e inesgotáveis giros. E seu número “Beguine the Beguin”, com o Fred Astaire, no filme “Broadway Melody” de 1940, é considerado um dos melhores duos de sapateado do cinema.

Vídeo do Fred Astaire e Eleonor Powell no número “Beguine the Beguin” do filme “Broadway Melody” de 1940 – https://www.youtube.com/watch?v=Tospvuz4gtc

5 – Foi no filme “Ziegfeld Follies” de 1946 que o público pôde apreciar os dois mais famosos sapateadores de todos os tempos dançando num mesmo número: Fred Astaire e Gene Kelly. Esse foi o único momento em que os dois dançaram juntos e a dança que eles fazem é, na verdade, uma adaptação de um número que Fred fazia com sua irmã, Adele, antes de começar a carreira no cinema. O filme “Ziegfeld Follies” é uma homenagem ao empresário do entretenimento no início do século XX que ajudou a florescer os grandes musicais da Broadway.

Vídeo com o número de Fred Astaire e Gene Kelly no filme “Ziegfeld Follies” de 1946 – https://www.youtube.com/watch?v=QKapFZt-sO0

6 – Os dois sapateadores que veremos agora são os principais representantes do estilo classic tap e eles fizeram parte do Copasetic: Coles & Atkins. A dupla se formou na década de 40 e por 19 anos eles permaneceram juntos fazendo apresentações em variados locais ao redor do mundo. O classic tap é um estilo de sapateado soft shoes, mais leve, controlado e elegante. Esse estilo nasceu com sapateadores negros americanos anos antes da dupla se formar, ao tentarem de alguma forma, combater o racismo existente. Os praticantes desse estilo naquela época davam um ar de elegância aos seus números, tentando desvincular a imagem dos negros a pessoas selvagens e tribais. Coles and Atkins, então, possuíam toda essa graça e elegância característica do estilo, se diferenciando de outros números da época que tentavam impressionar com sua agilidade.
Um de seus mais famosos números foi o “Slow Soft Shoe”, um número muito lento, porém altamente preciso que eles faziam em uníssono. Os dois integrantes desse importante duo foram Charles “Honi” Coles e Cholly Atkins. Apesar da dupla ser famosa por esse número lento, Honi Coles, antes de se juntar a Cholly Atkins, possuía a fama de ter os pés mais rápidos do mercado. E ele, em 1986, foi um dos fundadores da American Tap Dance Foundation junto com Brenda Bufalino e Tony Waag. Já o seu parceiro, após o término da dupla e durante o declínio do sapateado americano que aconteceu nas décadas de 50 e 60, trabalhou como coreógrafo de vários artistas da principal gravadora de música negra da época, a Mowtown. Por conta da segregação racial ainda presente na cultura americana da era de ouro do sapateado, a maioria dos sapateadores de Hollywood era branca e os sapateadores negros trabalhavam, normalmente, fazendo shows nas casas noturnas americanas. Com essa dupla não foi diferente, eles não fizeram parte do grupo de estrelas hollywoodianas. Mas há um filme de 1955 em que eles aparecem dançando juntos: o “Rock’n’Roll Revue”. Esse filme foi feito para a TV e é uma compilação de shows apresentados num teatro. Dirigido por Joseph Kohn e com várias estrelas da época como Duke Ellington e o sapateador Leonard Reed, “Rock’n’Roll Revue” foi feito num momento em que esse novo estilo de música estava surgindo. É interessante assistir ao filme, pois, a música tocada carregava muito dos estilos que deram origem ao Rock como o jazz e o blues.

Vídeo com a parte em que Coles & Atkins dança no filme “Rock’n’Roll Revue”- https://www.youtube.com/watch?v=NB_9USqKbzA

Aqui temos o famoso número da dupla, “Slow Soft Shoe”. Esse vídeo faz parte do “Over The Top to Bebop: Honi Coles and Cholly Atkins”, que foi produzido em 1964 com o historiador de jazz Marshall Stearns – https://www.youtube.com/watch?v=M6f6ewUdHcQ


7 – Para terminar, peço uma licença, pois nossa próxima dupla não é totalmente formada por sapateadores. Mas ela é formada por, talvez, o principal influenciador das gerações de sapateado das últimas décadas do sec. XX e por um dos melhores bailarinos de seu tempo: Gregory Hines e Mikhail Baryshnikov. Gregory Hines teve uma enorme importância no renascimento do sapateado na década de 80, tendo feito musicais na Broadway, programas de TV e vários filmes, sendo um deles o “White Nights” (Sol da Meia Noite) de 1985. O filme fala sobre a um bailarino russo que havia desertado para viver nos EUA e um sapateador americano amador que, durante a Guerra do Vietnã, fugiu para a Rússia. Como estamos falando aqui sobre um dos maiores artistas do balé e do sapateado, essa junção não poderia ser esquecida.

Vídeo com um trecho do filme “White Nights” (1985), com Gregory Hines e Mikhail Baryshnikov – https://www.youtube.com/watch?v=0qDGVHy5iTM

Falo um pouco mais sobre o Gregory Hines no texto “O Dia Internacional do Sapateado, Gregory Hines e Tap, a Dança de Duas Vidas” – https://poeticasembytes.com/2020/10/24/o-dia-internacional-do-sapateado-gregory-hines-e-tap-a-danca-de-duas-vidas/

Bem, essas são as minhas principais duplas do sapateado nos filmes americanos. E as suas duplas preferidas do sapateado? Você acha que eu deveria ter falado de alguma outra dupla que eu deixei de lado? Se sim, escreva nos comentários!

A Congo Square e a Cultura Norte-Americana

por Alexei Henriques

A arte do Tap Dance nasceu e se desenvolveu praticamente junto com a música e as danças oriundas do jazz. Por isso, falaremos um pouco sobre um local muito importante para o nascimento dessa arte que anos mais tarde viraria uma febre nacional e até internacional.

A Congo Square é um lugar dentro do atual parque Louis Armstrong, em New Orleans (EUA), que foi de extrema importância para a história da cultura norte-americana. O estado de Louisiana, onde fica a cidade de New Orleans, passou por diversas dominações de diferentes países europeus, tendo recebido africanos escravizados de variadas regiões desse continente fazendo com que, desde o início, essa região fosse altamente cosmopolita, poliglota e multicultural. Durante o séc. XIX a cidade cresceu muito, chegando a ser a quarta maior cidade dos EUA e seus portos foram a principal porta de entrada dos navios negreiros americanos, tornando a cidade a maior comunidade afro-americana do país.

O jazz, que é considerado o principal estilo musical tipicamente americano e que influenciou diversos outros estilos que vieram depois, nasceu após o surgimento do blues e do ragtime, com a fusão do vudu (religião com influência dos povos daomenos, onde hoje fica o Benim), da religião católica trazida pelos colonizadores latinos, dos cantos religiosos das igrejas negras protestantes, dos ritmos africanos, da canção de trabalho dos escravos, das marchas de fanfarra e das danças afro-americanas do século XIX. Mas ouve um lugar especial, na cidade de New Orleans, onde essa mistura toda pôde acontecer mais fortemente: a Congo Square.

Durante o período da escravidão, em diversos lugares das Américas, os fazendeiros forneciam aos seus escravos um mecanismo econômico chamado de “Brecha Camponesa”. Nesse mecanismo, alguns escravos recebiam pequenos lotes de terra do seu senhor para cultivo próprio e disponibilidade de, normalmente, uma vez por semana, trabalhar em sua terra conseguindo até comercializar seus produtos com outros escravos. Como o historiador Rainer Souza diz em seu artigo para o site “Mundo Educação”, essa prática, apesar de ter dado relativa ¨melhora¨ na condição de vida dos escravos, visava ampliar o lucro dos fazendeiros, diminuindo os gastos que eles tinham com as roupas e alimentos de seus escravos, além de dar uma imagem de “bom moço” aos fazendeiros, evitando conflitos e revoltas.

Em Louisiana, algo parecido aconteceu. Por terem sido durante um tempo de possessão francesa e obrigados a praticarem a religião católica, os escravos de Louisiana possuíam um Código Negro (Code Noir), criado em 1724, com regras um pouco mais brandas em comparação ao restante dos EUA como o direito de se casar, de não separarem os filhos pequenos de suas mães e de possuírem uma folga aos domingos. Mesmo durante o período que Louisiana foi de possessão espanhola, o Código Negro continuou em vigor. Essas regras estavam longe de trazer qualquer dignidade para o povo negro, mas, com isso, muitos escravizados puderam se encontrar uns com os outros e nesses encontros havia trocas de mercadorias, cultos religiosos e muita música e dança. A Congo Square ficou muito famosa por ter sido um lugar onde muitos escravos se reuniam e toda essa troca pode ser mais desenvolvida sendo considerada, então, o berço do jazz e da cultura afro-americana.

Referências:

Livros:

– FRANCIS, André. Jazz. Tradução de Antonio de Padua Danesi. 1ªed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1987.

– LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.

– LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010.

– STEARNS, Marshall. A História do Jazz. Tradução de José Geraldo Vieira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964.

Sites:

-DOUGLAS, Nick.Black History: Congo Square, New Orleans – The Heart of American Music. Afropunk. Disponível em: https://afropunk.com/2018/02/black-history-congo-square-new-orleans-heart-american-music/ . Acessado em 07/2020

– FRANK, Rusty. Tap Dance. Enciclopédia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/art/tap-dance . Acessado em 07/2020

– Hill, Constance Valis. Tap Dance in America: A Short History. Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/ihas.200217630/#:~:text=Tap%20dance%20is%20an%20indigenous,United%20States%20in%20the%201700s. Acessado em 07/2020

– MAJEWSKI, Adam e MASON, Kate. Congo Square: Mythology and Music. New Orleans Historical. Disponível em:  https://neworleanshistorical.org/items/show/745. Acessado em 07/2020

– SOUZA, Rainer Gonçalves. Brecha Camponesa. Mundo Educação. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/brecha-camponesa.htm#:~:text=Esse%20termo%20se%20refere%20ao,a%20venda%20no%20mercado%20interno. Acessado em 07/2020

Documentários:

– AMERICAN TAP. Direção: Mark Wilkinson. Produção de Annunziata Gianzero, Rayne Marcusm e Elka Samuels Smith. Estados Unidos: Ivy Media Group Inc., 2018.

– JAZZ. Direção: Ken Burns. Produção de Ken Burns e Lynn Novivk. Estados Unidos: Florentine Films e Weta, Washington, DC, em associação com a BBC, 2000.

Rua 42 e um dos mais influentes coreógrafos de Hollywood

por Alexei Henriques

O filme 42nd Street (Rua 42) de 1933, dirigido por Lloyd Bacon, com Warner Baxter, Bebe Daniels, George Brent, Dick Powell e as sapateadoras Ruber Keeler e Ginger Rogers (a famosa parceira de Fred Astaire) no elenco, foi o primeiro grande filme do coreógrafo Busby Berkeley que revolucionou a forma de fazer musicais no cinema, se tornando um dos mais importantes da história de Hollywood. Esse filme foi um dos maiores sucessos de sua época, salvando os estúdios da Warner Bros da falência, sendo indicado a dois Oscars. O enredo, assim como em muitos filmes musicais de seu tempo, tratava sobre os bastidores dos musicais da Broadway, tendo recebido ótimas críticas na época. Mas sua revolução mesmo foi na maneira de filmar os números de dança.

O coreógrafo Busby Berkeley (1895-1976) começou a carreira como militar, organizando shows para percorrer acampamentos do Exército durante a Primeira Guerra Mundial com números onde o sincronismo, a simetria e a grandiosidade eram muito importantes. Essas características continuaram com ele quando foi, primeiro para a Broadway, chegando a colocar centenas de sapateadores no palco e depois para as telonas. Ao chegar no cinema, Berkeley levou consigo todo esse sincronismo e inovou ao criar técnicas e efeitos de filmagem feitos especialmente para os seus grandiosos números musicais.

Algumas de suas características no cinema são as movimentações livre da câmera, com fluidez e naturalidade, o efeito caleidoscópio, onde a câmera começa com um zoom em algum detalhe e lentamente abre o plano até mostrar todo o conjunto, e frequentemente filmava as cenas de dança vistas do alto formando desenhos e formas geométricas com os inúmeros dançarinos que faziam parte dos seus filmes. Seus números musicais no cinema frequentemente eram feitos como se os dançarinos estivessem num palco de teatro, utilizando apenas uma câmera, para depois quebrar essas barreiras de maneira que apenas no cinema esse efeito seria possível. Berkeley dava menos importância aos movimentos do bailarino, colocando um foco maior no bailado da própria câmera com cenários gigantescos e muitos adereços. O número Fascination’ Rhythm no filme Lady Be Good (Se Você Fosse Sincera) de 1941 dançado pela grande sapateadora Elleonor Powell é um ótimo exemplo dos efeitos cinematográficos que Berkeley criou na época.

Após o filme Rua 42, Berkeley se firmou na indústria de Hollywood fazendo mais vários outros filmes musicais de grande sucesso na época como Footlight Parade (Belezas em Revista) de 1933, Gold Diggers of 1933 (Cavadoras de Ouro), os filmes da famosa nadadora e estrela de Hollywood Esther Williams e o inesquecível O Mágico de Oz (1939). Outros filmes que podemos destacar são Gold Diggers of 1935 (Mordedoras de 1935), com a primeira indicação ao Oscar de Berkeley (este filme tem um lugar na história do cinema apenas pelo grandioso número da canção ganhadora do Oscar daquele ano “Lullaby of Broadway”), Gold Diggers of 1937 (Cavadoras de Ouro de 1937), com a segunda indicação ao Oscar do coreógrafo, Babes in Arms (Sangue de Artista), um grande sucesso de bilheteria em 1939 e o primeiro filme da dupla Mickey Rooney e Judy Garland e For Me and My Gal (Idílio em Dó-Ré-MI), filme de 1942 com Gene Kelly e Judy Garland como artistas do vaudeville de 1915. Anos mais tarde, na década de 80, o filme Rua 42 ainda teve uma adaptação para a Broadway que também fez um grande sucesso.

As imagens visualmente impactantes que esse coreógrafo proporcionou à população americana deram a ela uma catarse de escapismo em plena década de 30, após a crise financeira de 1929. Depois desse grandioso filme, inúmeros outros musicais foram feitos seguindo os passos desse grande coreógrafo que influencia gerações até hoje.

Alexei Henriques – Setembro de 2020

Vídeo com trechos de várias coreografias de Busby Berkeley:

O número “Fascinatin’ Rhythm” do filme “Lady Be Good” (1941) dançado pela sapateadora Eleonor Powell:

Trechos do filme “Rua 42” com a sapateadora Ruby Keeler no início do vídeo:

O Dia Internacional do Sapateado, Gregory Hines e “Tap, a Dança de Duas Vidas”

por Alexei Henriques

O dia internacional do sapateado é comemorado no dia 25 de maio, pois essa é a data de nascimento do sapateador Bill Bojangles. Mas esse dia só entrou para o calendário americano em 1989, no mesmo ano do filme “Tap” (Tap, a Dança de Duas Vidas) estrelado por Gregory Hines. Vamos falar um pouco mais sobre eles e entender sua relação?

Um dos grandes nomes do sapateado com uma enorme importância para a história dessa dança, principalmente nos anos 80 e 90, durante o renascimento do sapateado, é Gregory Hines. Além de sapateador, ele era também cantor e ator tendo feito vários programas de TV, filmes em Hollywood e musicais na Broadway. Começou a sapatear ainda criança fazendo shows em casas noturnas com seu irmão mais velho, Maurice, além de ter tido aulas com o coreógrafo Henry LeTang e outros da velha guarda como Howard “Sandmans” Sims e os Nicholas Brothers. Através de filmes, shows, documentários e programas de TV, Gregory Hines foi um dos grandes responsáveis pela divulgação do sapateado nessa nova fase e pela valorização dos antigos hoofers. Ele fez mais de 30 filmes, muitos de grande importância para o sapateado dessa época como The Coton Club (1984), filme dirigido por Coppola, com participação do seu irmão Maurice Hines e que fala sobre essa famosa casa noturna da era de ouro do sapateado, “White Nights” (O Sol da Meia Noite) de 1985, onde ele contracena com um dos mais famosos bailarinos de seu tempo, o russo Mikhail Baryshnikov, e Bojangles (2001), onde ele faz o papel principal.

Gregory Hines também participou de programas de TV, chegando a ter o seu próprio programa chamado The Gregory Hines Show em 1992 e fez papéis em musicais da Broadway como The Girl in Pink Tights (1954),  Eubie!  (1979),  Comin’ Uptown  (1980),  Sophisticated Ladies  (1981) e Jelly’s Last Jam (1992), o qual chegou a ganhar um Tony Award de melhor ator em musical. Sempre que podia, Hines colocava o sapateado em seus trabalhos e sempre possuiu muito apreço e respeito à velha guarda do sapateado. Grandes nomes da atualidade foram alunos de Hines, como Savion Glover, Dianne Walker, Ted Levy e Jane Goldberg.

Mas aquele que talvez seja o filme mais importante dessa nova fase do sapateado e que foi feito pelo Gregory Hine, foi o “Tap” (Tap, a Dança de Duas Vidas) de 1989, dirigido por Nick Castle e coreografado por Henry Le Tang. Além de ter a sua participação como protagonista e a de Savion Glover ainda criança, o filme também possui em seu elenco vários dos maiores sapateadores negros da era do swing como Arthur Duncan,  Bunny Briggs , Howard “Sandman” Sims, Steve Condos, Harold Nicholas e Jimmy Slyde. Como Amália Machado e Flávio Salles dizem em seu livro Tap, A Arte do Sapateado, “O longa traz, ao mesmo tempo, uma reverência à velha guarda do sapateado e uma inovação com coreografias mais atuais”. Apesar do sapateado americano ter nascido e se desenvolvido principalmente com o povo negro americano, na era de ouro dessa dança as estrelas mais ricas e famosas, que faziam parte da indústria cinematográfica, eram brancas. Com esse filme, os antigos hoofers, ignorados por Hollywood em sua época áurea, puderam finalmente ter algum espaço no cinema, imortalizando suas performances.

Em 8 de novembro desse mesmo ano, o dia nacional do sapateado foi oficializado pelo congresso americano com a assinatura do então presidente George Bush. E o dia 25 de maio, dia do nascimento de Bill “Bojangles” Robinson, foi o escolhido para honrar esse grande ícone do sapateado americano. Robinson foi um grande contribuinte para o desenvolvimento da técnica e estilo dessa dança, além de ter cruzado barreiras raciais e comerciais.

Mas para conseguir oficializar essa data, foi necessário um longo caminho. Em 1983, o congressista Edward Boland (MA, 2º Distrito) já havia apresentado um projeto de lei para designar todo o mês de maio como o Mês da Apreciação Nacional do Sapateado. Mas o projeto não teve êxito naquele momento. Poucos anos mais tarde, a estudante de pós-graduação Linda Christensen com a sua professora de sapateado da época, Carol Vaughn, e seu colega de classe Nicola Daval criaram uma organização sem fins lucrativos, o TAP (Tap America Project), e deram início ao projeto de lei que oficializaria o dia nacional do sapateado. No decorrer desse tempo, toda classe do sapateado, fãs, estúdios de dança, organizações de dança, professores, estudantes, administradores e escritores se juntaram à causa delas. Mas foi com o “Tap, a dança de duas Vidas” que, em conjunto com a produtora do longa, houve uma campanha que serviu tanto para a divulgação do filme quanto para a divulgação do projeto de lei. Após finalmente o projeto de lei entrar em vigor, a notícia acabou se espalhando para outros países fazendo com que o dia nacional do sapateado acabasse se tornando o dia internacional do sapateado.

Trecho do filme “Tap, a Dança de Duas Vidas”. Aqui, os sapateadores estão fazendo uma batalha bem da maneira como era feito no Hoofers Club durante a era de ouro do sapateado. Essas competições de improviso tão comum naquela época acontecem até hoje. Nessa cena o Henry Le Tang, coreógrafo do filme, está ao piano e os sapateadores que aparecem dançando no vídeo são (na ordem): Arthur Duncan, Bunny Briggs, Jimmy Slide, Steve Condos, Harold Nicholas (um dos Nicholas Brothers que falamos no meu 1o texto para esse site, o “Melhor Número de Dança da História”), Howard ‘Sandman’ Sims, Sammy Davis Jr. e Gregory Hines.
Eles começam a sapatear em 1min e 40seg do vídeo.