Fotopoemas – Suzana Vargas

Adeus

Acendo a luz da palavra meuamor
no meio dessa noite
e minha voz ecoa
num corredor de vozes

Não sei expressar não quero expressar
o que fica por dizer
mais forte que eu mesma
menos finito e quase sempre nunca

Acendo a luz da tua voz
a se perder
na linha telefônica do mundo
prefiro ficar muda a falar pouco
a dizer pouco
a pouco ser

Prefiro
infinitamente nada

e ponho o pé na estrada

Quase decálogo do amor

O amor é vermelho e tem medo de perder
e se preocupa com cartas não respondidas
com o silêncio do telefone,
e a falta da palavra meuamor
O amor é feito de ausências e dependências
de encontros desmarcados e acertos
de memória e corpo

Se está longe, o amor deseja estar perto,
Se está perto, não sabe o que fazer com as mãos
nem com as palavras
Em geral, o amor perde tempo na repetição de tudo:
do verbo ao toque
E porque sabe que é feito de finais
o amor nunca começa
ou se perde no momento em que inicia

O amor vicia

Embalada a vácuo

Não me surpreende em nada tua ausência
Antes de me deitar contigo eu
já sabia
que ainda não era

Legado

Aos amantes é dado o dom
de cozinhar futuros
e de tombar passados

Deu-lhes a vida que os alimenta
o sonho e nada mais

Aos outros deu esperanças,
objetivos
o silêncio luminoso das estátuas

Aos amantes
o gesto, o movimento,
a cor às vezes possível de encontrar

Abacateiro

abacateiro – sm.awaktl/flia das Lauriáceas
México/Am.Central/alligator pear. Etimologia pessoal: árvore que nunca deu frutos
no pomar de minha casa

Adormeci pensando no abacateiro
e sua paciência de Jó
que é anual e se renova
cuja ciência talvez sem esperança
seja esperar
com a leniência do que
em suma
é lento e gorduroso

E sonhei para ele ocupações mais nobres
terapêuticas, diuréticas,
menos calóricas,
astecas,
mais relevantes como
temperar saladas
ou servir de pasto aos crocodilos
que esperam também por sua presa
de surpresa
em Macchu Picchu
Tenotchitlán,
cidades perdidas
no tobogã de suas folhas
macias e lustrosas
no tronco pardacento de cera perfumada
incenso
que me conduz até o amanhecer
e me desperta à sombra
desse verde gigante adormecido
à espera de um dia
nunca ser colhido
no quintal de minha infância
e do meu pai

Cartilha

Parreira
à sua sombra ouvi passar um avião
e assisti ao parto da gatinha enquanto uvas brancas
derramavam-se em bacias

Mais tarde
preferi a uva preta
e a noite,
os insetos, as larvas, os miasmas
também eles têm lugar
no meu pomar

Hoje tenho o vinho
não a uva
nem o Ivo
que a vovó nem
chegou a conhecer

Epigramático

Um sonho na pode ser
maior que nossos braços

Nem tão estranho
que não pertença ao nosso corpo

Casas se constroem com palitos de fósforos

Casas se constroem com palitos de fósforos

ou materiais mais delicados,
se edificam com fogo, taipa,
cartas de tarô, castelo ideal para o
anjo das intempéries

Mais perigoso que o sopro do lobo
é o respirar lento das rotinas
ainda que elas sejam o regar plantas
ou dormir sob o azul

Meus três porquinhos tremem
sempre que cruzam a cancela

Ouvindo a casa

A água cascateia pelas pedras e
corta a casa há séculos

Sua presença é o barulho
chiando na memória das rochas,
dos musgos,
daqueles sons que adormecem, empilhados
feito partituras sem execução

Várias são as notas que recebem o visitante
imitam a vegetação em variedade,
sutilezas da dona – demorada –
e sempre
em construção

Piscina & Lazer

Toda piscina sem uso
guarda mágoas em proporções gigantes,
envelhece com seus ladrilhos gastos,
escorregadios

Algum dia serviu para
altos
saltos,
para o amor,
para malhar um corpo, adornar
as possibilidades da paisagem
ou refrescar memórias

Esta
não fica atrás
e nem trariaà tona
seu passado ineficaz
quando quem dá as cartas
é o dono
da água

Pátio

de sol
gramíneas, maravilhas de verde e liquens:
carrinho de mão,
pá e regador
descanso de tijolos
num labor aposentado há muito

… permanece ali
caprichosamente sujos
desimportantes para o tempo

esse jardineiro cego

De longe

a casa verde era o que há
com seus ladrilhos de tempo
e cortininhas azuis
berço de bebês ao redor da lareira
e seu papai Noel fugindo pela chaminé

De perto
era o que é
um lugar a mais
(talvez bastasse um telhado)
onde habitar o coração

Felicidade

Felicidade: melhor não conhecê-la
para não arrancar seus cabelos,
não rasgar suas vestes bordadas de azul
Melhor não conhecer
para não acender
esses girassóis inquietos da memória
onde ela nos perturba e existe
com seus sinos
no trailer dos seus filmes coloridos

É uma flor inesperada,
vem sem agenda com hora marcada
e não se repete como a um prato de comida,
rosa esquecida pelo acaso das coisas
E o principal:
melhor não pensar nela
para caber, enfim,
no seu vestido

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