Fotopoemas – Nora Fortunato

Beijaria teus lábios

Beijaria teus lábios, não como um segredo não revelado, não como um postal guardado na caixa antes de ir ao correio, não como um bilhete vencido de um filme de cinema, mesmo o preferido.
Beijaria como quem incorpora um sopro em meio à calamidade, como quem se esquece das contas, dos elevadores dos prédios da capital, como quem se incendeia com água e pede colo, para depois se desfazer em ternura, em duas ou três palavras que nada tenham a ver com amor, com a delicadeza de quem risca um fósforo tentando o fogo.
Beijaria com as mãos suaves, com o primeiro verso de um poema sobre a mesa, com a mesma sensação de quem veste um chinelo de pano.
Beijaria com meus lábios passando de leve sobre os cabelos longos, os fios se enroscando na penumbra.
Quase suspiro, quase sêmen, sumindo na carne do seu riso.

Pai

Eu não sonhei com você publicando seu livro na garagem de casa. Não alisei seus cabelos antes deles penetrarem a chuva. Não fiz caricatura do meu queixo que é idêntico ao seu, nem costurei os botões das suas blusas no meu diário escolar. Não alimentei os gatos no telhado onde a gente se banhava de sol. Eu pulava pneus na terra que você construiu e na cabana da árvore mais alta do quintal, magnetizava palavras ao fim da tarde. O corpo todo semente, qual tofu quando emplastro para febre, alternando-se entre receptor e guardião.
Você me embalava nos seus braços de pai enquanto as formigas invadiam a churrasqueira de tijolos, cheias de cinzas do amanhã. A mais feliz das meninas era a filha do poeta,o procurador que desejava aos filhos sensibilidade.
Nos trâmites da sua ida, fiz-me garota caracol. Mais valente que uma serpente, guerreira das festas dos fins dos livros, Joana D’Arc do violoncelo, filha solitária dos anjos que desembarcaram na Praça XV. Desço as escadas do seu rosto num plano giratório, fugindo nos parques aquáticos do signo de peixes.
Flutuando na tela do meu celular, está seu violino parado com as cordas brancas.
No aquário imenso da saudade, como as poesias que você ainda escreve, enquanto desajeito meu corpo na cidade órfã.

Voo e colisões

Somos os responsáveis
Por esse par de rosas
Feitas de fogo e pensamento
Nem a raiva girando entre as pontas
Suprirá o riso perdido
O ventre assusta- se.
Mas, para além do agora,
A fogueira continuará viva:

Não se escapa imune
À violência corpórea do amor.

Não até quarta

Não até quarta
até nunca mais
para que eu
não seja refil
de idas e vindas
e não dê ao meu
estômago
boquiaberto
mais apólices
de pequenas
ressurreições

“Gosto de começar praticamente com um ponto final” Gonçalo Tavares

A mente é um maratonista que escolhe a pista em que a competição não acontece.

Saudade

Uma trouxinha líquida de desenho que escorre do papel até a mão, para que não seja possível escrever sem derrapar.
O tempo declinando verbos num elevador emperrado.
O ranger de portas destacando o metal da noite felpuda para cristalizá-lo na saboneteira em uso contínuo.
Um segredo que se torna vapor.

Fale desejo

Fale desejo para que ele irrompa, para que ironize a pele e você possa reaver o que se move. Diga: desejo, sem fundo de coração, sem garantias, sem amostras nem petit comitês. Diga desejo com o cheiro reabrindo diálogos, com toda insônia que cabe ao sexo, desejo por puro apelo. Na contramão sei que desejo, diga, até se convencer que seu corpo tem tônus e é permeável.

O chão é o ar

Um fim de semana com pic-nic em pleno verão.
Em casa, as baratas
tontas neste mesmo verão, em outra cidade,
caligrafam o assoalho.
Os dançarinos esticam o ângulo em meio a espumas de mar.
Pela praia extensa
conchas
até chegar à pequena ilha de água parada.

“Molhe seus cabelos
até que estejam pesados e lisos,
realmente pesados e lisos.”

A saia de acrobatic girl
(num pic- nic cinza)
Ela tocava “O menino de rodas”
e agora senta-se com o cadeirante.
Os bailarinos mais à frente
Chego até ela e pergunto:

Me fala de tecidos, nós
chaves com pés. Chaves que o corpo
imprime ao tecido. Ao corpo do tecido.

Um poema afônico


Este poema morre na fala.
O dorso ferido se espraia como um problema possessivo.
(mãos atreladas a outras falas
no concreto dos azulejos, sem guia para mais andar)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Revista eletrônica de arte contemporânea

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: