Fotopoemas – Mércia Menezes

Identidade

Na manhã urgente, entre xícaras de café
e manchetes do dia,
retorno à minha aldeia.
Lá, faço cântaros de folhas,
brinquedos de barro.

Sou muito antiga,
sou a mesma retirante
que se pensava urbana.

Mas o telefone chama.
O zap apita.
A britadeira expõe
Os nervos da cidade.
Não resisto.

Pouso outra vez o coração no horizonte
e viro lenda.

Passagem

A solidão marcha nos riscos de luz,
a infância ressurge na aldeia.

Nasço onde se repartem as falas de minha mão
E escuto apenas a menina-índia.

A mãe imanta meu corpo com pinturas para ritual sagrado
O pajé entrega-me o talismã laranja-amarelado,
ainda existe âmbar no centro do coração

Mércia Menezes e Nora Fortunato

Quase intacto

(Para Suzana Vargas e Nora Fortunato)

O rapaz e a bailarina cubana dançam frevo.
A moça diáfana roça o infinito.
Enquanto ela rodopia,
nos seus olhos só cabem os da moça.

O rapaz nasceu de um graveto,
com uma nódoa no coração.
A bailarina brotou de uma escultura de taco.
E no seu coração quase intacto há pressa.

Alagoa Grande – PB

1
pingo de menino no vasto terraço
inventa armadilhas
para apanhar lagartixas mas ao vê-las.
se esconde e todas criam asas
2
no quintal menina
pega o sapo pelo pé
gira, gira, gira,
atira além do muro
e vira animal aéreo
3
no chão de fogo
moças entornam água sobre o terraço
o menino se joga no chão parado
a água doce tem sabor do mar
e sua jangada flutua sobre o sertão
4
o sol esfrega os olhos
um homem segura a mão da menina
caminham na lagoa, apanham
latas com furos
onde camarões vivos se assustam
5
e quando o primeiro
espelho
habita a casa
moças e crianças se refugiam no telhado

Equilíbrio

No apartamento
em movimento
o mundo não tem calma

ele traz nas mãos
quase sem carne
a memória de um corpo

enquanto a porta sofre
com o esbater
do punho da moça

é quando o vento
música sem letra
abre as portas da estante

dela nasce
outra moça que sopra
uma lasca de lua

o apartamento escreve
memórias sobre a mesa
ao lado de hastes sem flores

Gritos brancos

O grito da gaivota
ecoa nos barcos e pescadores
à deriva na terra

no arrastão, ossos, latas
sacos, garrafas pet
aves de luto betume

pratos sobre as mesas

o cheiro do peixe frito
ancora na memória de uma ilha
sobre o grito branco das marés

Memória Cambiante

1.
Caminho do Pescador, Leme.
Joga o anzol, murmura sozinho

um oceano de permeio, mas sua
pátria não dorme no pensamento:

um mar de ovelhas em Aveiros
e a imensa pipa presa à arvore

com ventos quase ciclônicos
a pipa voa em desvario.

2.
À noite, na quina do telhado
com barbante pendura a frigideira

a iluminação desce da lua,
das lamparinas das casas

ao balançar a frigideira, o alumínio
desdobra-se em reflexos cambiantes

aos poucos, a luz perpassa ruas
reverbera por Aveiros, Continentes

Personas

Quando as pedras amanhecem
a mulher verde
num monólogo surreal
caminha em ondas
noivas inúmeras
sobre as pedras desfilam
longos vestidos e buquês
de um rubro profundo
sozinho, em grupos
estrangeiros passeiam
sua babel de camisas
bermudas, cabelos e línguas
duas moças de preto
sentadas frente a frente
nas malhas das suas costas
brotam palavras místicas
debaixo dos coqueiros
moços, garotos, meninas
invisíveis pelo país
prontos ao segundo exato do salto

Enigma

A partir de um filme de Jean Cocteau

Um homem apolíneo
de torso nu desenha
um rosto feminino

a boca delineada
começa a murmurar
palavras indecifráveis

tocam a campainha
com a mão fechada
ele esfumaça a boca

mas a esfinge não se cala
e ressuscita
na mão do desenhista


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