Rejane Oliveira entrevista Suzana Vargas

Suzana Vargas é poeta, autora de livros infantis, ensaísta, produtora cultural e professora de literatura com vários títulos publicados. Formada em Letras, com Mestrado em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possui, entre poesia, literatura infantil e ensaio, 16 livros publicados. À frente do Instituto Estação das Letras coordena os cursos oferecidos pelo espaço, programas literários e as diversas ações de incentivo à leitura desenvolvidas pela entidade.

ROA Estação das Letras, que você idealizou e dirige há 25 anos, transformou-se num celeiro de muitos e bons escritores do País. Como nasceu a ideia e o que te move?

SV – A ideia da Estação nasceu a partir das oficinas de criação literária que ministrava desde o início da década de 80, da minha profissão de professora de literatura e do projeto Rodas de Leitura que desenvolvo há bem mais que 25 anos. À época (1996), reuni um time formado por excelentes escritores e professores universitários ,aluguei uma sala no Largo do Machado e trabalhei com um sistema cooperativado que ainda existe e se sustenta. Economia Criativa é comigo mesma, mas precisei inicialmente contar com a ajuda de muita gente pois dinheiro não havia nenhum. Levei móveis da minha casa, ganhei outros de alunos antigos e fui edificando sobre a areia como se fosse pedra (apud, Borges)

RODeve ser difícil sobreviver em meio à sucessão de crises que tem atingido a cultura em geral. Às atuais políticas públicas de franca hostilidade ao setor, este ano veio somar-se a pandemia.

SV Muito difícil sobreviver com cultura, com arte no Brasil e com literatura muito mais. Eu consegui porque não pagava minhas contas com esse trabalho. Paralelamente a ele eu dava aulas, trabalhava na Fundação Biblioteca Nacional, realizava produção de eventos literários e escrevia artigos e livros. Muito trabalho para quem certamente não é uma empresária. Depois de 25 anos de trabalhos intensos, surge a Pandemia. E surge num momento dificílimo para o país e para mim, que já não sou uma garota. Mas estamos conseguindo atravessar esse túnel. Onde vamos sair, não sei, mas a literatura vai nos indicar o caminho.

RO Num cenário tecnológico de ebooks e redes sociais, você é otimista quanto ao futuro do mercado editorial tradicional?

SV – Acho que a leitura existirá sempre, independentemente do suporte. Sou otimista porque acredito na importância do fato literário na nossa formação intelectual, na nossa sensibilidade. Hoje em dia o livro físico se transformou num descanso para olhos, ouvidos e mentes contemporâneas.

RO Além de formar escritores, a Estação promove cursos e atividades de estímulo à leitura. Afinal, o gosto pelos livros está em declínio?

SV O prazer de ler nunca vai entrar em declínio se houver bons professores que gostem de ler e pessoas criativas à nossa volta. Esse declínio é uma fantasia apocalíptica que não corresponde à realidade. Acabamos (o IEL) de concluir um projeto de Rodas de Leitura online no Morro do Alemão cujo sucesso entre as mais de 120 crianças e jovens foi uma alegria para nós!

RO As ações do IEL também se estendem à área social, a exemplo das rodas de leitura e da distribuição de livros em comunidades excluídas; e, agora na pandemia, do programa de arrecadação de cestas básicas. Pode nos explicar melhor essas ações?

SV Neste momento da pandemia a Estação se uniu à Associação Nagai (que desenvolve um projeto no Morro do Alemão desde 2012) para levarmos livros e capacitação de leitura a mais de 120 crianças e jovens. Junto com o projeto, fizemos uma campanha de arrecadação de cestas básicas muito positiva. As Rodas funcionaram assim: os alunos ganhavam os livros dos autores. Durante três encontros os livros eram lidos com a orientação de mediadores de leitura. No quarto encontro , elas interagem com o próprio autor numa espécie de entrevista. Funcionou muito bem com todas as faixas etárias (dos 05 aos 20 anos).

RO Deixemos a Estação por enquanto e falemos sobre a escritora, a poeta Suzana Vargas. Como você se define?

SV Custei a me nomear poeta mas é o que sou. A poesia está na origem de tudo que construí na vida. Absolutamente. Do mais comezinho e burocrático detalhe ou projeto ao mais complexo. Foi a poesia que me impulsionou a trabalhar pela leitura, nas oficinas de criação literária, nas curadorias etc e na criação da Estação das Letras.

RO Para terminar, uma pergunta inevitável: que conselhos daria aos jovens escritores?

SV Conselhos práticos: participar de grupos, aulas de criação literária e de concursos pode ser um belo caminho. Se possível, não pagar suas edições ou não ceder à tentação de publicar sem antes ter certeza de que seu material é bom (certeza elástica.. rs). A internet está aí e ajuda MUITO. E ler, ler e reler muito. Por último, acreditar na força do que escreve e na alegria desse exercício maravilhoso que é a escrita. É um caminho a ser descoberto e trilhado.

Revista eletrônica de arte contemporânea

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: