Dag Bandeira entrevista Marlene de Lima

Marlene de Lima, que Alagoas emprestou ao Rio de Janeiro e, por que não dizer, sorte dos cariocas, vai nos dar seu depoimento sobre a arte de observar o mundo, entendê-lo e transformá-lo em rendas a exemplo das Rendeiras do Nordeste que trançam os fios crus e os transformam em verdadeiras obras de arte. O esmero dessas rendeiras com a agulha, os bilros, as mãos e linhas é que inspira Marlene a, com lápis e papel (teclas e tela), tecer a trama de seus de contos.

DB – Sabemos que nos seus dois livros, “Homem sem agá” (Cais Pharoux, 2011) e “por onde anda a gata?” (7 Letras, 2017), você nos conduz em um passeio de Alagoas ao Rio de Janeiro com paradas estratégicas em qualquer lugar onde uma boa história esteja esperando para ser contada. Pode nos dizer se é mais a criatividade, ou mais a memória, o que a leva a forjar as tramas de seus contos?

ML – As duas experiências andam juntas no meu processo ficcional. Desde criança fui leitora assídua da literatura de cordel, estilo que tentava imitar. Posteriormente, migrei dos livros de M. Delly, de estilo romântico e “água com açúcar”, para os clássicos de nossa literatura. Da “Biblioteca das Moças”, para Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano, Machado, Lima Barreto, Clarice, e outros autores. No Rio, passei a ver o Nordeste em perspectiva. As vivências, as histórias contadas, os “causos” é que abriram meu horizonte para a capacidade de criar. Ali se achava o celeiro de onde passei a tirar a matéria da minha escrita. Sem falar nos mestres que me deram “régua e compasso”, é claro. Quase uma epifania.

DB – Vários escritores nos falam sobre o martírio de encarar a folha (tela) em branco. Você sofre desse mal? Se a resposta for afirmativa, diga como lida com ele.

ML Creio que todos os escritores sofremos desse mal, em maior ou menor escala. Quando isso acontece, recorro, às vezes, a algo que vi acontecer em Alagoas, como, por exemplo, a moça ter engravidado do noivo e aguarda sua volta de uma viagem. O casamento está próximo. Mas o avião teco-teco em que o rapaz viajava cai num mato fechado. Meu conto é sobre o desdobramento da tragédia, à luz da moral da época e do lugar. Também, procuro não me desesperar com o apagão; de repente o assunto salta de uma reportagem jornalística, ou até de uma frase no vidro traseiro de um ônibus. Quando ainda se usava cheque, muitas vezes anotei meus achados na capa do talão.

DB Qual o papel da leitura para a formação do bom escritor? Quais os autores que a influenciam no que diz respeito à construção do enredo?

ML A leitura abre o mundo. Amplia o vocabulário. Estoca na cabeça das pessoas as palavras para dizer o que elas querem dizer. Sabemos de escritoras e escritores humildes que tiraram livros do lixo, tal sua necessidade de ler. Penso que um escritor é, antes de tudo, um leitor.

Fui influenciada pelos autores que citei acima, não que não aprecie os nossos autores contemporâneos. Um professor me disse que Jorge Amado era um pintor de painéis, pondo em descrédito o valor literário dos seus romances. Mas se vê que a linguagem dele é clara e direta, como de qualquer contador de histórias. Os enredos são instigantes. Têm humor, mesmo quando o assunto é sério. Já presenciei jovens dizendo que se deliciaram com as tramas dos seus personagens. E, por isso começaram a gostar de ler. Devo dizer também que os valores teóricos que adquiri na faculdade de letras e oficinas da vida vieram a reboque de minhas leituras, não o contrário.

DB O que se deve levar em conta na criação de um personagem?

ML “Só posso escrever o que sou. E, se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só.” Diz Graciliano em entrevista. Procuro descrever o personagem física e psicologicamente no decorrer do texto. Sua compleição física, nível social e cultural vão aparecer em suas atitudes. Penso que se, no começo da história, você parte para descrições das pessoas, como se estivessem atuando num palco, você desmotiva o leitor. E é preciso fisgá-lo de cara. Principalmente no conto, que é uma narrativa curta. Bem, é apenas uma opinião.

DB Você lê outros autores quando está no processo de criação de um projeto?

ML Sim, até porque não sou boa em organizar projetos. Minhas narrativas se espalham caoticamente em caderninhos pedaços de rascunhos que estão à mão, até na mesinha de cabeceira. Há canetas em toda a casa. Sei que não é um bom exemplo, e todo final de ano juro que vou me modificar, tentar dar uma “normalidade” ao meu processo. Os contos que ficam “prontos” são deixados dormindo na gaveta, depois de, em sua maioria, serem expostos às críticas do grupo literário a que pertenço. Claro que leio outros autores e, às vezes, encontro soluções para trechos do que estou escrevendo. Quando leio Cortázar, por exemplo, invejo seu estilo.

DB Qual o conselho que você pode deixar aqui para todos que desejam escrever com o intuito de publicar?

ML Em geral, quem tem esse intuito é um leitor contumaz. Sente-se atraído pelo fazer literário. Não deve se afastar da gramática, ainda que, estilisticamente, as normas sejam quebradas em favor da expressão. Por exemplo, é regra que o pronome oblíquo venha enclítico em início da frase. Mas isto não acontece na linguagem coloquial. A oralidade sempre está presente na literatura de ficção. É preciso cuidar do texto para que ele passe no crivo do editor. Não sei se estou respondendo à pergunta. São muitas as nuances.

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