O diferencial

Rejane Oliveira


Loira, recatada, quase virgem. Atende-se a senhores sérios, respeitosos, com hora marcada. Recito salmos.

– Tá louca, amiga? Esse anúncio não dá tesão nem no teu pastor. Deixa comigo.

Gata loira, completinha, safada, corpicho violão. Atendo homem, mulher e casal. Barba, cabelo e bigode. Recito salmos.

– Ficou longo, tem que reduzir. O jornal cobra por letra. Só não pode é tirar os salmos, o diferencial é importante.

Loira violão. Serviço completo sem discriminação. Recito salmos.

– Melhor deixar o básico.

Puta loira recita salmos.

O anúncio valeu a pena, a Rita sabe das coisas. Entra dinheiro fácil, já separei o do casamento. É cliente toda noite, às vezes dois e até três. Quase sempre gente fina, de respeito. Deve ser por causa dos salmos, puta loira tem aos montes. Que Deus me perdoe, mas este trabalho foi uma benção.

Resisti seis meses ao pecado. Rita me tentava desde que entrei como cuidadora noturna do seu Clóvis. Contava, aos risos, como dopava a velhinha do 101, diluindo Dormonid na sonda pra poder sair e atender aos clientes. Numa noite em que a velha demorou a apagar, se tomou de ousadia e recebeu um homem no sofá da sala.

Naquela época eu ouvia, me benzia e orava por ela. Aceitei a amizade porque acreditava, acredito até hoje, que toda alma tem salvação. Recitava salmos e mais salmos pra amiga, na esperança da conversão. Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca. (Mateus 26:41)

Ela gargalhava e me apertava as bochechas.

Quando o câncer de pulmão matou seu Clóvis, quase me desesperei. Minha demissão era certa, morto não tem cuidador.  Adeus, casamento. Foi quando lembrei da cantilena de Rita.

– A gente faz umas safadezinhas pra agradar aos clientes. Tem tiozinho que paga só pra olhar. Depois, lavou tá novo; é vida que segue. Na minha rua ninguém sabe, me tratam como moça virgem.

Orei muito antes de concordar.

Naquela primeira noite pedi a bênção ao papai e saí normalmente, como se fosse cuidar do seu Clóvis, vestida com o jaleco branco de auxiliar de enfermagem e levando uma sacola grande de lona listrada a tiracolo. Dentro da bolsa, as peças indecentes que a Rita tinha me emprestado: umas tirinhas de renda preta e veludo roxo, que depois descobri ser um conjunto de fio dental e corselê; uma máscara dourada como aquelas de carnaval, que só cobrem os olhos; um scarpin altíssimo de verniz preto; e uma caixinha de maquiagem com kit de cílios postiços, batom vermelho-sangue e uma paleta de sombras cintilantes. Minhas novas ferramentas de trabalho.

Frederico é um homem puro, imaculado. Pastor Zenzo que não me ouça, mas se fosse católico ele não seria meu noivo, seria santo. Bonito não é, mas tem aquele jeito sério, decente, de homem feito pra casar. As irmãs solteiras, e até algumas casadas, são todas loucas por ele.

Notei o sorriso tímido pro meu lado num culto de domingo. Faz quatro anos já, mas lembro até hoje. Chovia muito, a rua alagou e ficamos ilhados no templo. Durante o sermão o pastor tentava, aos berros, concorrer com a metralha dos trovões. Pregava contra a pornografia e a degeneração dos costumes.

Depois daquela primeira vez, Frederico sorriu pra mim durante três meses. Como numa peça ensaiada, repetíamos sempre a mesma coreografia: ele mostrava os dentes pequenos e eu abaixava os olhos. Até que minha prima Letícia perdeu a paciência e nos apresentou:

– Meu colega no escritório de contabilidade. Minha prima, técnica em enfermagem.

Apertamos as mãos e pronto. Foi como liberar uma represa. Frederico abriu a boca, começou a falar e nunca mais parou. Em menos de um mês, queria me pedir em namoro ao papai.

Bem que eu gostaria de dizer que sim, mas não podia. Ninguém desconfiava do meu passo em falso, da minha impureza. Há uns três anos, acreditei nas palavras de um canalha e nos maus conselhos de minha carne imunda. Pequei. Mais de uma vez. Nove vezes. Com gosto. Me entreguei como um animal rendido, presa fácil da armadilha da luxúria. O capeta pegou um ônibus e desapareceu, mas a marca do pecado eu carregarei pra sempre.

Frederico jamais aceitaria uma namorada como eu, então resolvi acabar logo com aquilo. Contei-lhe tudo pra que perdesse as ilusões e me deixasse em paz com a minha cruz.

– Se Deus acolhe o pecador arrependido de volta a Seu rebanho, quem sou eu para julgar?

E foi assim que ficamos noivos. Ele me contou que era virgem, nunca andara com mulher, e só impôs uma condição: que dali em diante nos guardássemos puros um para o outro. Sexo, só depois do matrimônio. Achei bonito, mas a carne é fraca. Uma noite ousei me aproximar, toquei onde não devia. Frederico deu um salto e afastou-se de mim. Homem de palavra. Fiquei envergonhada e nunca mais voltei a tentar.

Adoro o Frederico. Acima dele, em meu coração, só Jesus. A Rita diz que o que sinto não é amor, é gratidão. Digo que não, brigo com ela. No fundo, talvez amor e gratidão sejam a mesma coisa. A gente retribui com amor a gratidão por ser amada.

Daqui a 33 dias, a bondade do meu noivo vai lavar de vez os meus pecados. Já adiamos a cerimônia duas vezes, o que ganhávamos não chegava pras despesas do casório. Mas agora é definitivo, já mandei imprimir os convites: envelope cor de rosa, bordas douradas e um lindo laço carregado por dois pombinhos risonhos. Custou caro, mas estou podendo. Numa semana boa, tiro mais dos meus clientes do que o Frederico recebe em um mês no escritório. Quando ele pergunta, digo que a família do seu Clóvis é muito generosa.

Não gosto de mentir, Deus castiga, mas é por uma boa causa. Já poupei o suficiente pra festa e até pro pré-natal.  Por enquanto só a Rita sabe: planejo engravidar o mais rápido possível. Nosso primogênito será um varão e vai se chamar Freddy. Fredinho.

Aos poucos, estou avisando aos clientes fixos pra procurar outra loira, em dezembro eu paro. Mulher casada não costura pra fora.

Vou sentir falta do serviço, peguei amizade por alguns fregueses. Quando dei o aviso prévio ao meritíssimo, coitado, ele até chorou. O doutor me procura quase toda noite, uma hora ou duas de motel, mas nunca conseguiu uma penetração completa, fica só no que a Rita chama de antessala do prazer. Vontade ele até tem, mas o corpo não reage. Aos poucos desistiu de tentar, nem tira mais a roupa. Passamos o tempo conversando, eu nuazinha no colo dele, sentada de frente, com as pernas abertas sobre suas coxas. Enquanto recito salmos (ele tem loucura pelos versículos de Mateus), o juiz me chupa os peitos.

De outros clientes, não vou sentir saudade. O Tonhão, por exemplo, que foi meu primeiro programa. Apareceu com aquela conversa de que era irmão de fé, pedindo desconto, dizendo que pegaria leve, só papai e mamãe. No final me arranhou toda com unhas, dentes e aquele bigodinho nojento de ponta espetada. Quase desisti do trabalho naquele dia mesmo. Minha vingança é que ele não consegue segurar, o jato vem logo de cara, arrastando junto a moral do canalha.

É minha última noite, amanhã estarei casada. Eu nem vinha trabalhar, ia convidar o Frederico pra jantar fora. Ele preferiu ficar em casa sozinho, orando por nossa felicidade. Deve estar nervoso com a lua de mel, sem saber como agir na cama. Também pensei nisso e decidi que não vou ajudá-lo com meus conhecimentos. Deixarei que tome todas as iniciativas, assim ele ganha confiança e me põe logo no papel de esposa. Com o tempo, quando começar a querer outros avanços, libero aos poucos, assim como quem aceita mas não quer, como prova de amor.

Caprichei no visual da aposentadoria. A lingerie é nova: carmim debruado de dourado, da Sensuality. Um desperdício, nunca mais vou usar essas indecências; mas a clientela merece esse último agrado. Depois passo tudo pra Rita, as roupas e a agenda.

Sinto o peso da garrafa na sacola. Nunca bebi álcool na vida, Deus me livre e guarde, mas é um dia especial. Trouxe champanhe e taça descartável pra brindar com os dois fregueses da noite. O primeiro é o meritíssimo, fez questão de se despedir e prometeu uma surpresa. O segundo seria o engenheiro careca, o que sempre me traz flores. Seria. Na última hora, enviou mensagem avisando que a mulher chegara de viagem e mandaria um amigo no lugar. Gregory Peck, o nome do amigo. É cada uma. Muitos inventam apelido, ficam com medo de chantagem. Até um Batman já atendi.

O juiz chegou antes de mim. Quando abri a porta da suíte do motel, já o encontrei deitado na cama, inteiramente nu, aquele olhar derrotado. Largada ao lado dele, a maior prótese peniana que já vi na vida. Quase chorei de pena. Então a surpresa era esta: ele queria tentar pela última vez, mas não passara do ensaio. Arranquei depressa o jaleco e corri pra consolar o doutor com o calor da minha nudez. Ele primeiro se encolheu na cama, depois levantou-se, me pegou pela mão e levou pra poltrona. Me puxou para o colo e escondeu o rosto entre meus peitos. Ficamos ali abraçados, em silêncio, até o fim do horário. Não houve salmos nesta noite.

Despedi-me com um longo beijo de língua. Fiquei triste, mas não havia tempo pra lamentações. Em 15 minutos era a vez do Gregory. Vesti às pressas a lingerie nova, me penteei e retoquei a maquiagem no espelho oval da suíte. Tirei a garrafa quente da sacola e pus na mesinha de cabeceira, junto com as taças, ao lado do vasinho com o falso girassol. Quando bateram na porta eu estava pronta, perfeita.

O choque não deve ter durado nem dois segundos, mas pareceu uma eternidade. Eu e o Frederico ali, parados, olhos nos olhos. Foi ele quem piscou primeiro. Olhou para o chão, terminou de entrar no quarto, fechou a porta e foi logo tirando a roupa. Me empurrou pelos ombros e me jogou na cama. Sem uma palavra, rasgou a calcinha nova e fez de mim gato e sapato. Não sei por onde andaram os olhos dele enquanto me usava de todas as formas, com sabedorias indecentes que não são de virgem. Os meus estavam fechados, as lágrimas escondidas sob a cortina espessa dos cílios postiços.

Quando acabou comigo ele se vestiu depressa, abriu a carteira, escolheu uma nota de cem e jogou sobre a cabeceira. A lembrança do anúncio me tirou do torpor: Puta loira recita salmos. Saltei da cama e impedi que saísse:

– Peraí, ô Gregory Peck. Foi barba, cabelo e bigode. São 300 reais, pra você não tem desconto.

Esperei que batesse a porta, enrolei cuidadosamente as notas e escondi o dinheiro no decote do corselê. Antes de sair, estourei a rolha da champanhe e bebi até a metade, no gargalo mesmo. Depois vesti a calcinha rasgada e fui pra rua só de lingerie, montada no scarpin de verniz. Deixei o passado pra trás junto com a bolsa de lona listrada, esquecida sobre a poltrona do motel. Dentro dela, a Bíblia sagrada, meu jaleco branco e a moldura de coração com o sorriso três por quatro do Frederico.

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