Dil Duprá

Rejane Oliveira

Ninguém se interessa pela versão dos perdedores. Mesmo assim, vou contar a minha. Não esperem uma narrativa linear, há sentimentos conflitantes se debatendo aqui dentro: um pouco de orgulho, outro tanto de remorso.

– Sala da professora Maria Rita?

– Pode entrar, ainda estamos nas apresentações.

– Meu nome é Adilso Prado, sou porteiro de condomínio.

– Por que fazer o supletivo?

– Deixei a escola muito cedo pra sustentar minha mãe. Ela faleceu faz dois meses. Acho que chegou a hora de seguir com os estudos, quero subir na vida.

Esse início modesto todo mundo conhece, ele relata no primeiro livro. O Sucesso ao Alcance de Qualquer Um está na lista dos mais vendidos há semanas. A obra não cita meu nome nem os dos colegas, ele nunca foi de dividir merecimentos, mas inventa um companheiro de curso que seria “a anta mais obtusa do planeta”. Até na ficção aquele homem precisa de sparring.

Inteligência ele tem de sobra, não posso negar. Inteligência, ambição e força de vontade. Tem também um novo nome: Dil Duprá. Com todo esse capital, mais uma capacidade rara de autopromoção e total indiferença aos sentimentos alheios, só precisou de poucos anos para chegar onde chegou.

De início, a única coisa que o destacava dos colegas era a aparência física. Um anjo moreno de cachos queimados de sol e dentes perfeitamente brancos. De anjo, porém, não tinha nada. Logo notei os olhares insinuantes para minhas coxas; os elogios mudos, mas eloquentes, ao meu decote.

Não me culpem. Por que eu não me renderia? Qualquer moça carente, como era o meu caso, teria sucumbido à tentação. O primeiro encontro foi no Boteco do Ernesto. Adilso me convidou e fez questão de pagar a conta. Cinco brahmas e uma porção de pastéis de costela depois, fomos parar no quartinho dele nos fundos da portaria. Naquela noite, numa cama de solteiro que não chegava para os pés, os girassóis desbotados do lençol testemunharam minha transferência de posse.

Eu quis repetir a dose na noite seguinte. Ele disse que um dos condôminos descobrira a ousadia e ameaçava contar tudo ao síndico. Sem pensar duas vezes, arrastei-o até minha casa. Adeus, girassóis. Na despedida, já o chamava pelo apelido carinhoso de Dil. Não confessei, mas aquele Adilso sem o ene mexia com meus brios de professora.

Não demorou muito, umas duas ou três semanas, e ele se mudou para a minha quitinete. Não sei bem como aconteceu, só lembro que um dia brigamos feio, tive medo de perdê-lo e implorei para que ficasse. Ele trouxe a mala da portaria para casa naquela mesma noite.

No fim do terceiro mês, perdeu o emprego. Foi mais ou menos quando passou no supletivo. O viado do síndico tava me dando mole. Calma, amor da minha vida, fica tranquilo que logo logo você arranja outro trabalho.

Passei a bancar as despesas sozinha. O orçamento encolheu, tive que dar aula particular para pagar as contas. Nunca reclamei, sustentar meu homem era uma espécie de prova de amor. Dil custava caro: metido a conhecedor de cerveja artesanal; uísque, só escocês. Saíamos quase toda noite. De dia, enquanto eu ralava na escola, ele ficava estudando. Em pouco tempo, parou de falar em procurar emprego.

Sua formação intelectual, em compensação, avançava rapidamente. Aquilo me enchia de orgulho. Com o passar do tempo, minhas estantes de professora já não bastavam para tanta sede de leitura. Associou-se a duas bibliotecas e passou a devorar os clássicos.

Quando cansava de ler, sentava à cabeceira da mesa e começava a escrever. Não me mostrava seus textos, dizia que seria uma surpresa. Começou usando papel e lápis, mas logo a fatura do meu Visa acusava a compra de um notebook de última geração. Ousei pedir satisfação, ele reagiu me acusando de mesquinharia e amarrando a cara durante três dias. Só voltou a me procurar, cheio de mãos, para pedir ajuda.

Escrevera um conto de três páginas para um concurso literário, queria minha opinião. O texto era prolixo e confuso, mas tinha algum potencial. Tentei explicar-lhe que aquilo não era bem um conto, estava mais para ensaio. Ele me ouvia atentamente, como bom aluno, apenas balançando a cabeça em sinal de concordância. Isso até eu ter a má ideia de dizer que aquele tema não vendia. Nesse momento, rasgou as laudas bem picadinhas e bateu com força a porta do quarto, obrigando-me a dormir no sofá.

No dia seguinte, fui acordada bem cedo pelo chiado da cafeteira. Fingi que dormia enquanto reparava com o canto do olho que Adilso, já banhado e vestido, engolia um café apressado antes de sair pela porta com uma pasta na mão. Foi assim a semana inteira.

Um dia tomei coragem e perguntei onde ia. Ele limitou-se a responder que estava fazendo uma pesquisa de mercado.

Onde? – insisti.

– Bibliotecas, livrarias, editoras. Mas isso não lhe diz respeito, é coisa minha.

Como de hábito, aceitei a grosseria. E não procurei saber o que ele tanto digitava quando passou a virar as noites debruçado sobre o notebook. Seja lá o que estivesse escrevendo, certamente viria me procurar na hora da revisão.

Os meses se sucediam, e Adilso ao computador. De tempos em tempos, escutava-se o barulho monótono da impressora. Daí a pouco ele reunia os papéis impressos na pasta e saía de casa por algumas horas.

Não vivíamos mais como casal, quase não nos falávamos. Apesar do distanciamento, bastaria um gesto dele para que eu me atirasse em seus braços. Na noite em que cheguei em casa decidida a conversar sobre o relacionamento, já não o encontrei. No canto da mesa onde antes estivera o notebook, apenas um bilhete.

Finalmente encontrei o filão que vai me deixar rico e famoso. Quanto a nós, preciso de um tempo.

Corri para o quarto à procura de respostas. Não havia mais nada dele, nem a bandeira do fluminense pendurada na parede. No banheiro e na cozinha a mesma coisa, era como se ele nunca tivesse passado por lá.

Dei-lhe o tempo que pedira e pus-me a esperar. Uma espera penosa, que me consumia a moral. Levei dois anos para aceitar que não voltaria. Foi mais ou menos por essa época que li a notícia no jornal:

Dil Duprá, sensação da literatura de autoajuda, estará na cidade amanhã para uma noite única de autógrafos.

Me arrumei como há muito não fazia. Calcei até salto alto, às custas de dores atrozes nos joanetes. Embora ainda fosse cedo, já encontrei na livraria uma fila de fãs à espera do autor.

Ele atrasou mais de uma hora. Entrou sem pedir desculpas, de terno armani azul escuro e braços dados com a mocinha da novela das sete. As câmeras espoucaram por todos os lados.

Esperei pacientemente na fila de autógrafos. Na minha vez, pus as duas mãos em seus ombros e olhei bem dentro dos olhos dele. Dil Duprá nem piscou.

– Seu nome, minha senhora?

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