Matinê

Marlene de Lima

É noite ainda em teu cabelo preto.
(Castro Alves)

Ajustou os óculos. Todas as manhãs, seus olhos davam uma passeada covarde pelo obituário do jornal. Sempre o medo de encontrar ali ex-colegas de magistério. Quando acontecia, vinha-lhe um desconforto no peito e ficava quieto por alguns minutos, o espanto virando aceitação e alívio — como um sobrevivente. Fazia bem um ano que não se deparava com nomes conhecidos, a não ser de pessoas famosas — artistas, imortais da ABL, carnavalescos. Mas, naquela Quinta-Feira Santa, leu o nome dela entre o de um velho palhaço e o da pobre universitária vítima de bala perdida.
Amaralina de Oliveira Simmel. Marido, filhos, noras, genros, netos. Enterro às cinco. O anúncio espaçoso denunciava o status da falecida. Foi mais do que desconforto no peito, onde as pontes de safena haviam deixado um caminho grotesco. Teobaldo abraçou o jornal com uma força que fez doer a cicatriz e respirou fundo. Bem fundo, como se respirasse tudo a que tinha direito naqueles cinquenta anos.

Ouviu os passos de Odete, com o remédio, e se recompôs. Olhou-a no rosto. Sem poder evitar, voltou a sentir aquela sensação antiga, irracional, de que pensava estar liberto. Quem sabe, propositadamente ela tivesse se colocado no lugar da outra, sem nunca ter conseguido nele se encaixar? Seus cabelos, agora azul-acinzentados, mesmo na juventude jamais mereceriam um só dos versos do poeta — perversamente comparou.

Amaralina, nome de praia — queixava-se. Bom para anagramas. Quantos ele inventara. Jogos de letras no caderno adolescente. Mar, amara, anil, amar, lira, rama. Numa das tardes em que ela gazeteou a aula de educação física, compôs, em vergonhosa paráfrase de Castro Alves, um poema enaltecendo os olhos e os cabelos da amada. E ela ria, dobrando o cós da saia grená do uniforme, para ficar mais curta sob a blusa branca.

Pensou em ir ao velório. Talvez não fosse boa ideia. Cinquenta é muito chão. Desmentiriam o retrato em preto e branco afixado no mural da biblioteca, ao lado de algumas divas do cinema mudo, para disfarçar. Sorte era que Odete pouco ou nada sabia sobre esses filmes. Já era chateação demais viver com um cinéfilo farejador de sebos. “Bem que podia ser cineasta” — palavras dele. “Só se fosse pra gente passar fome” — ironizava a mulher. E, sob espessas sobrancelhas, o olhar de Amaralina parecia tão antigo quanto o da vizinha de parede Theda Bara, num retrato raro.

Recém-operado, ninguém ia deixá-lo sair. Valeu-se da cumplicidade do neto, que lhe garantiu o salvo-conduto, sob a promessa de ser jogo rápido. Não era mesmo programa de convalescente.

Teobaldo vestiu o terno cinza comprado para a formatura da filha mais nova. Arrumou com esmero e Gumex os destroços amarelados de um topete e, com o olho livre da catarata, examinou as unhas, aparando-as sem pedir ajuda à mulher.

“Pra que esse chiquê todo, vô? Pra ver um palhaço morto? Parece que vai casar. Você tem cada uma…”– Marcelo censurava, de braços cruzados, escorado no portal.

O Corsa azul se emaranhava no tráfego da Figueiredo Magalhães. Hora de rever a namoradinha que o abandonara, pasmado, à porta do Metro Copacabana, com os ingressos na mão. Lembrava-se da ironia do cartaz — “Bom dia, tristeza”. Ficava perplexo sempre que pensava no assunto. Até porque o namoro tinha quebrado a barreira das convenções; não era mais de beijinhos. Faziam amor — ou transavam, como se diz agora —, coisa que obrigava o homem. Um compromisso moral. E ela nem aí. Foi-se com desculpas vagas.

Véspera de feriadão, o Túnel Velho também estava engarrafado. Passava das quatro.

“Que hora você escolheu, hein, vovô. Tomara que dê tempo.”

“Pare de resmungar. O velho aqui sou eu.”

Naquela mesma noite, chegara à casa de Amaralina disposto a contar tudo à mãe viúva, sobre o relacionamento dos dois, e oficializar o noivado. Afinal, tinha dezenove anos e terminara o colegial; podia muito bem arranjar um emprego.

A recepção não foi nada boa. Dona Irene, sentada no sofá, com o braço cercando a filha, ficou muda. O Dr Fontes, advogado endinheirado, padrinho e candidato a segundo pai, andando de um lado para o outro no apartamento modesto, não lhe deu nem tempo de se explicar ou entender as razões daquele desfecho. Pareceu até liberal demais: “Hoje virgindade não tem mais a mesma importância; você é um jovem esclarecido e sabe disso. Admiramos sua retidão de caráter. Mas minha afilhada precisa viajar, se instruir. Na verdade, é muito nova para pensar em casamento. Encontrará outra moça que goste de você, meu rapaz.”

Nunca odiou tanto alguém como aquele coroa de olhos de bola de gude, verdes, e pinta de gringo.

Saiu dali dispensado sem mais nem menos e golpeado pela anuência de Amaralina. Tentou outras vezes falar com ela. Tudo inútil. Chegaram as férias de fim de ano. A família se mudou do Catete. Quando recomeçaram as aulas, a ex-namorada não voltou a se matricular. Imaginou que, talvez, o padrinho lhe pagasse os estudos e agora dera pra trás, obrigando dona Irene a tirá-la do colégio. As colegas não sabiam dela.

Estranhamente, o que mais o aproximou de Odete foram as confidências. Cessaram depois do casamento. Ela, porém, sabia do retrato, fingindo acreditar ser o de uma artista do cinema mudo. Novas divas em preto-e-branco apareciam, vez em quando, achadas sabe-se em que velharias, e passavam a ladear a musa das musas.

Apaixonado por cinema, ele lamentava não haver cursos específicos ao tempo em que estudava. Se houvesse, largaria a Física. Às vezes, a mulher o surpreendia, altas horas, diante do televisor da sala, assistindo, pela enésima vez, a “Bom dia, tristeza”. Em certa ocasião, Debora Kerr e David Niven dançavam numa festa local; noutra, Jean Seberg retocava a maquiagem diante de um espelho quebrado da boate. E houve a noite em que o marido, na ponta da cadeira, acompanhava os namorados em trajes de banho, se beijando na boca. Mais do que erotismo, toda aquela força vital rolando no chão. Odete sabia: o ator era Teobaldo; Jean Seberg, Amaralina.

Sorte acharem vaga. Teobaldo deixou Marcelo manobrando e andou o mais rápido que lhe permitia a sutura no tórax.

“Espere, vou ajudar nas escadas. Relaxe, vovô, o morto não vai fugir.”

“Pare de me dar ordens, menino. Você não precisa subir.”

No primeiro andar, aquele zunzum de saída de funeral. Marcelo não encontrava o avô. “Velho teimoso. Se passar mal, vão me culpar.” Entrou no velório do palhaço e nada. Saiu procurando até vê-lo no de uma mulher. “Além de tudo, mentiroso.”

Lá estava ele, imóvel, em contemplação. Amaralina não devia ter morrido de uma dessas doenças que reduzem a pessoa a frangalhos. O rosto sereno guardava ainda traços da estudante bonita. Bem diferentes os cabelos. Agora louros. Se a visse na rua, talvez não reconhecesse. Disfarçadamente colocou algo sob a almofada à cabeceira da morta.

Próximo da porta, Marcelo assistia ao ritual de encomendação do corpo. Um pequeno círculo em torno do caixão se juntava ao padre. Por um momento, viu Teobaldo falar com o garoto ao seu lado. Devagar, o avô se aproximou do velhinho em cadeira de rodas. Curvou-se sobre ele, numa lenta sessão de reconhecimento. E ninguém ali entendeu por que aquele desconhecido elegante começou a empurrar a cadeira para fora da sala mortuária. Uma parte dos que rezavam correu para interceptá-lo.

Sob a aba do boné xadrez, o antigo apaixonado descobrira, na figura do viúvo, o Dr. Fontes com seus olhos verdes afundados no rosto macilento. Num segundo, desvendou o que se ocultara na encenação daquela noite — a resposta para a pergunta de cinquenta anos.

A confusão chegava ao corredor, quando Marcelo interveio.

“Tá louco, vovô? Vamos embora, pare com isso. Vão levar você preso.”

“Não antes de jogar este canalha escada abaixo.” A voz fraca e trêmula não conseguia traduzir a raiva estampada no rosto banhado de suor e lágrimas.

No bolo que se formou, o rapaz segurava o avô por trás, na tentativa de lhe imobilizar os braços. Fontes, manietado pelo AVC, grunhia indefeso. Alguns parentes e amigos tratavam de impedir que aquele louco causasse algum prejuízo ao resto de gente a que estava reduzido o advogado.

Surgiu uma enfermeira armada de seringa, que foi afastada por Marcelo. Um segurança o ajudou a levar Teobaldo até o carro.

Inventou nova mentira para livrar a cara do avô. Consistia numa briga entre a família do morto e um pequeno grupo de palhaços, que insistia em cantar marchinhas. A história acabou em soco pra lá, safanão pra cá, sobrando uns sopapos para Teobaldo, que sofreu uma crise de taquicardia.

Aos pés da cama, Odete e o Dr. Sérgio conversavam em voz baixa. Um olhar terno de Teobaldo surpreendeu a mulher. Mas Odete entendeu. Não engolira as explicações do neto. Também tinha visto o jornal. Amaralina, agora, era somente um retrato. Tentou sorrir para o marido, mas, confusa, disfarçou, transferindo o sorriso para o médico.

“Se soubesse que ele tinha roubado a sua namorada, e que ela estava ali, mortinha, eu tinha deixado você se vingar.”

Avô e neto cochichavam no quarto, depois que ficaram sozinhos.

“Obrigado, meu filho, mas pra quê? O meu ódio não ia se aplacar. De que morte ele teria de morrer para compensar esses cinquenta anos?”

“Vô, por que ela ficou com ele e não com você, que era moço e gostava dela? Por que lhe dizia que o Fontes ia ser padrasto? E a mãe, nisso tudo?”

“A resposta é uma só, Marcelo: dinheiro. Agora entendo o ‘Simmel’ no jornal. É o último sobrenome daquele salafrário.”

“E que negocinho foi aquele que você botou dentro do caixão, hein? Pensa que não vi?”

Teobaldo se recostou nos travesseiros, riu de leve e passou a mão nos cabelos do neto.


“Os dois ingressos daquela matinê.”


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