Flecha certeira

Marlene de Lima

“Hipocampo. Nunca ouvi falar nessa doença, Luiz.”

“Não, mãe. É uma região do cérebro. Só que o Juarez já era pra ter melhorado.”

“É, faz mais de um ano. Mas o que se há de fazer? Vamos deixar pra lá. Seu irmão está bem. Trabalha, voltou pro fandango e anda até namorando, não é?”

“Sim, mãe. Mas ele não se conforma. Fica nervoso, sem conhecer as pessoas na rua, sem saber o que fez ou o que deixou de fazer. Qualquer hora a Magda larga ele.”

“Meu filho é bonito, inteligente, sabe até desenhar. Por que vai largar ele?”

“Porque todo mundo acha que ele é doido, mãe.”

As lembranças tinham fugido. O médico tranquilizava. Tudo voltaria ao normal. Era jovem e forte. Muitos passam por esse estágio, depois de traumas.

E as cicatrizes? Como as conseguira? Precisava saber a quem odiar.

A psicóloga inquiria. Em que ano estamos? O que gosta de fazer? Em que escola fez o curso primário? Juarez detestava perguntas. Não sabia as respostas.

O irmão o visitava na clínica, puxando assunto. A repressão acabou. Não precisava mais usar nome falso. Nem a mãe, queimar livros. Nem passar noites em claro para vigiar a rua. Dentro dele, porém, o breu. Que livros? Que nome falso?

Voltara para casa. Quiseram aposentá-lo, mas a mãe foi pedir. Aos poucos, reintegrou-se ao trabalho na Capitania. Quando saía do cais, ia à praia com a prancheta. Gostava de desenhar, enquanto acompanhava a marcha dos navios se aproximando do porto. Num deles ficara preso por não sei quanto tempo. Dito por Luiz.

Aproximava-se o Natal. Juarez voltava do fandango. Desceu do ônibus no começo da Avenida. Seguiu pela Estrada Nova, com cuidado para não respingar a farda nas poças.

Só um poste aceso no Beco das Sete Facadas, atalho para casa, na Maravilha. De noite, poucos encurtavam caminho por ali, mesmo na lua cheia. Medo da pobre moça assassinada. À tarde, entrava um carro ou outro — vidros fechados — procurando o randevu. Não acreditava em assombração. Mas, para se distrair, cantava os versos que acabara de solar dramaticamente no tombadilho da Nau Catarineta, montada em taipa e madeira na Pajuçara.

Valei-me Nossa Senhora,
Caiu um gajeiro n’água.
Nossa Senhora valei-me…

Atrás, alguém bateu palmas. Desde o início, tinha visto a mulher de branco.

Ela emparelhou. Sorriu. “Esta é a parte de que gosto mais, Juarez.”

A fulana sabia até seu nome. Do fandango, certamente. Muitas mulheres ficavam de olho grudado na figura do contramestre e conheciam sua história de esquecimento.

Não era de raparigas. Achava o sexo pago aviltante. Mas, no momento, passavam debaixo da luz, e com um rabo de olho viu o tope da morena. Um pouco mais baixa que a estatura mediana dele. Na medida. Além disso, caminhava meio balançando, o que fazia o brilho do vestido ondular nas curvas e metade dos peitos boiar no decote redondo.

Ela se chegou, quase encostando o corpo. Caminharam um pedaço, ele cabreiro. Num lance repentino, o abraçou pela cintura e falou quase boca a boca.

“Eu moro aqui mesmo no Sete. Quer vir comigo?”

“Nem sei seu nome.” — Disse, à falta de coisa melhor e sentindo o corpo reagir.

“Lalu.”

Não ficava bem desmerecer a farda. Mas foi arrastado para o sombrio da mangueira, onde a luz do poste nem sonhava em chegar. Se apoiaram no tronco úmido da chuva da tarde. As gotas retidas nas folhas pingavam sobre o casal. Beijaram-se. Ela partiu para outros chamegos e a coisa foi ficando séria. Acabaram na meia-água por trás da cerca de estacas, onde Lalu morava.

A noite se estendeu, e as molas da cama patente rangeram, incansáveis, sob o colchão de crina. Juarez não se arrependia de estar ali. Lalu era alegre, delicada. Nem parecia mulher da vida.

A claridade entrava pelas frestas da janela e por entre as telhas. Juarez catou a cueca no chão e pegou a calça em cima do baú, onde se sentou para amarrar os cordões dos sapatos. Demorou-se num olhar sobre a parceira: cabelos embolados na fronha e uns restos de rouge e batom. Bonita, mesmo desfeita.

Tudo começou a acontecer quando ela respirou fundo e se virou de bruços. O lençol fino se desgovernou e caiu, deixando à mostra o traseiro nu, que brilhou no enquadramento de duas ou três telhas de vidro.

Um coração trespassado se destacava, nítido, marrom escuro, na pele mais clara que o resto do corpo.

Foi no casebre de Josemar — alugado pelo pescador, por hora, à rapaziada — que Juarez fez a tatuagem. A cena surgiu como no cinema. Entre tarrafas, samburás, fateixas e um Bom Jesus dos Navegantes na parede caiada, a namoradinha se submetia gemendo de dor e dizendo nomes feios. A pena de escrever queimava a pele com o líquido da castanha de caju. O rapaz pedia calma — “já estou na pontinha da flecha.”

Laura, Laurita. Ainda não era essa Lalu do Sete Facadas. Naquele tempo, gazeteava as aulas para sair com ele praia afora. Perdeu-a de vista e soube que estava morando numa cidadezinha qualquer, ah, já se lembrava, Capela. Os amigos o consolaram.

Dali, saltaram outras e outras recordações.

O passado fluía.

Rostos e nomes, um a um, na nova memória. Abria-se a porteira. As farras, o sindicalismo. Seu envolvimento com as greves. A prisão e as sovas para revelar o que não sabia.

Codinome: Ziguezigue.

Juarez se levantou de mansinho. Dentro dele, emoção estranha — um rebuliço. Deixou o quarto. Passou pela sala e enfiou de qualquer jeito o dólmã. Enxugou os olhos com a manga do uniforme. O certo era odiar, querer vingança. Alguém pagar por suas humilhações. Mas a alegria de saber quem era se sobrepunha. Sem terapias ou comprimidos, retornava. Todas as respostas na nádega esquerda de Lalu, um pouco a noroeste da linha divisória. Nunca se sabe onde a felicidade se esconde. Saiu, fechando o portãozinho. O sol começava a invadir o Beco.

Encontrou a mãe a caminho da missa.

“Isso são horas? Onde você andou se espojando, seu…?”

Ele se deu conta da túnica desabotoada, imunda do xumbrego na mangueira.

Riu do carão materno. Afinal, não era mais um menino.

Juarez rodopiou no meio da rua.

“Mãe, fiquei bom!”


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