Do meu jeito

Marlene de Lima

Perdoa o mau que desvaria
E traz os olhos rasos de água.
(Manuel Bandeira)

A princípio, tiros espaçados. O suficiente, porém, para que as pessoas se refugiassem no interior da capela e evitassem as janelas. Adiou-se a saída às quatro horas. Outra tentativa, vinte minutos depois, e mais um recuo. Apreensão em cada rosto. O funcionário da Santa Casa veio avisar: às cinco em ponto. “Sem prorrogação”, advertiu, como se fosse um jogo de futebol.

Àquela hora da tarde, tinham aparecido os amigos, vizinhos, ex-colegas dela do Ministério da Saúde, tios e primos, à proporção que foram sabendo. Um antigo cliente da loja, num lento discurso, fez elogios ao falecido. O padre aspergiu água benta e leu o Novo Testamento.

Por que não conseguia chorar? Ia-se o companheiro de uma vida, e ela de olhos secos.

As filhas, uma na Suécia, outra em Nova York, não puderam vir. Ao seu lado no banco desconfortável do velório, somente Alex, o neto de dezenove anos. Os dois chegaram momentos antes do caixão. Penélope não se aproximou logo. Tinha visto o marido pela manhã, quando o enfermeiro abriu o zíper do plástico preto, na morgue. A morte inesperada a deixara em choque. No lugar da dor, um espaço oco. Depois se daria conta do quarto vazio, da poltrona sem dono, das camisas órfãs no armário.

Nos últimos anos, ele vinha sofrendo com as crises de insuficiência cardíaca. Achava que não viveria muito. Gostava de poesia e até escreveu algumas. Lia poetas de amor e morte e lhes imitava o estilo. Os tuberculosos, de preferência. A partir de Álvares de Azevedo, chegara ao lirismo de Manuel Bandeira. Danilo não era mórbido. Era um romântico. Daí, seu script do próprio funeral.

Terno branco. Cestos de suas flores prediletas despejados sobre o caixão, após baixado à sepultura, e ao som de “My Way”, de Sinatra, na voz de certo tenor amigo da família. Por fim, a leitura do poema escolhido pelo futuro de cujus. Ela pedia que parasse com o exagero e se recusava a tomar conhecimento da “programação macabra”.

Não foi fácil, em poucas horas, achar o cantor e encomendar tantas margaridas.

Agora, sons longínquos num tum-tum tum-tum. Tiros da polícia. Todo mundo sabia.

Quarenta e dois anos de casamento. Não era para ser assim. Deveriam ter-se separado naquela ocasião, vinte anos atrás, quando teve um caso com o professor de francês da filha mais velha. Quis ir embora com ele. Estava louca. Ou estava certa. Não brigaria pela guarda das meninas. Ficariam com o pai. No futuro, as duas entenderiam.

Houve uma calmaria. Possível trégua entre as facções que disputavam os pontos de venda de drogas.

O marido apaixonado, frágil, chorou e citou Drummond: “Amor é o que se aprende no limite.” Ela sempre se arrependia de ter capitulado. Nunca desejou ser perdoada. Que a chamasse de puta e a expulsasse de casa. Afinal, liberdade tem seu preço.

Finalmente, às cinco e pouco, o pequeno desfile avançou pela alameda principal do Catumbi.

Penélope, logo atrás do caixão, caminhava sozinha. Os óculos escuros, enormes, escondendo a greve das lágrimas. Certificou-se do livro de poesias dentro da bolsa. “Na hora, você é quem vai ler, Alex” — prevenira o neto.

Difícil saber se o novo ra-ta-ta-ta-ta provinha do Morro da Mineira, ou o de São Carlos, os dois logo ali.

E a chantagem valeu. Envelheceram juntos. Foi boa esposa, apesar de, vez em quando, sonhar com o professor de francês. Enfrentou a derrocada financeira. A mudança do Leblon para o Rio Comprido. O coração de Danilo, porém, não aguentou a perda da loja de antiguidades — o último dos bens e seu xodó.

O som das rajadas repercutiu no cemitério e se espraiou sobre cruzes e monumentos. O medo transformou cada figurante do cortejo num guerrilheiro sem arma, com o corpo encolhido, buscando proteção nas laterais dos jazigos maiores. O esquife foi abandonado no chão e os seis carregadores — filhos e amigos — correram para se agachar na entrada de um mausoléu.
Alguém arrastou Penélope para a sombra de uma Nossa Senhora do Rosário. De onde estava, a viúva entreviu os corajosos voluntários deixarem o abrigo, prosseguirem, em disparada, com o morto, e desaparecerem numa curva do cemitério — naquele momento uma paisagem deserta.

Minutos depois, aproveitando nova trégua, as pessoas começaram a surgir de trás dos túmulos e, ensandecidas, correr para o portão.

Penélope recostou-se no banco do táxi. Ouvia o arrancar dos últimos carros, enquanto esperava o neto. Fechou os olhos com desalento. Danilo não merecia aquele roteiro inacabado — as metralhadoras, a debandada, as pobres margaridas espalhadas ao longo da alameda.

Lá fora, sirenes, tropel de colegiais atravessando a praça e mães, aos gritos, arrastando as crianças menores.

Já era noite, quando, em casa, abriu o livro na página marcada. Alex leu para a avó as palavras de Bandeira que não foram ditas. Por trás de cada uma delas, Penélope reconheceu o pedido de desculpa. Chorou em silêncio. Porém sem conseguir afugentar a frustração de uma solteirice tardia, somente trazida pela morte. Liberdade, agora, era solidão.

Por onde andaria o professor de francês?


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