Entrevista com o crocodilo

João Paulo Vaz

Meu nome não interessa. Eu mesmo pouco me lembro dele. Não tem a menor importância e, de qualquer forma, você não ia saber pronunciar. Sou o Crocodilo do Tarzan. Contracenei com o Johnny Weissmuller.

Como todo mundo, você deve estar querendo saber como foi o caso das rabanadas em cena. Antigamente eu me recusava a falar disso. No início, inclusive, por recomendação do meu advogado. Agora já não importa. Mas não deixa de ser uma ironia cruel essa insistência da mídia – ou da superficialidade humana, sei lá – de resumir a vida de alguém a um caso espetacular, se é que se pode chamar de espetáculo meia-dúzia de costelas quebradas.

Quem nunca fez cinema não imagina quantas horas de filmagens e refilmagens custam alguns segundos de cena de luta num lago. O Johnny tinha dublê, eu não. E se você prestar atenção, vai ver que o esforço todo fica por minha conta. Por conta da minha coluna, para ser mais exato. Faço fisioterapia até hoje por causa disso.

A dramaticidade está nas contorções – a agonia da luta, a água respingada, a espuma clara sobre a superfície escura do rio. Não sou nenhum poeta, mas tenho olhos.

O Johnny era meu amigo. Um bom sujeito, grande atleta, mas um ator ruim. Com tanto talento pra atuar quanto eu pra voar. E é um erro pensar que, em filmes de ação, talento é dispensável. O suspense é fundamental. Um crítico que sabia das coisas disse uma vez que o ápice do suspense eram as cenas em que eu aparecia entre as moitas da margem, preparando o ataque. O olhar de predador, a movimentação lenta do corpo e, de repente, o mergulho. O espectador aterrorizado, agarrado ao braço da poltrona, ansiava pelo mergulho como quem acaba ansiando pelo desenlace inevitável de uma tragédia, porque não suporta mais a tensão da expectativa.

Não digo isso por vaidade. Já estou velho o suficiente para saber que a humildade não é uma virtude, é só uma conclusão lógica inevitável se você enxerga um palmo além do focinho e é capaz de um mínimo de reflexão e autocrítica.

A verdade é que, naquele filme, o orçamento era curto. E o dublê – um modelito de merda com físico de Tarzan – mal sabia nadar. Então, apesar da água pouco acima da cintura, o sujeito insistia em montar nas minhas costas. Depois eu soube que o idiota era texano, devia estar achando que aquilo era um rodeio de jacaré. Isso mesmo, de jacaré, porque ainda teve mais essa: na conversa com o diretor, antes da cena, ele tinha se referido a mim como “o jacaré” – uma coisa que me irrita até hoje. Há pouco tempo, uma apresentadora de televisão perguntou o que eu achava da vida de jacaré no Rio de Janeiro. “Não sei” – respondi – “sou um crocodilo. E você? O que acha da vida de perua em São Paulo?”

Talvez porque “crocodilo” seja a identidade que me resta. A única que me acompanhou desde o nascimento e vai acompanhar até a morte, a que está gravada no corpo.

Tenho pensado muito nisso, ultimamente. Na minha idade, a gente já não se pergunta mais “quem eu sou?” ou “quem eu quero ser?”. A pergunta é “quem eu fui?”

Então, você revê a sua trajetória no mundo e se espanta. Porque é ela que define a sua identidade, a tal consciência de si mesmo que, pelo menos desde Descartes, cada um de nós guarda como o bem mais precioso. E essa preciosidade, essa jóia sagrada da Cultura Ocidental é fruto do mais corriqueiro acaso.

Fiquei sendo o Crocodilo do Tarzan como poderia ter sido qualquer outra coisa. Eu era um crocodilo adolescente recém-chegado a Los Angeles, desempregado e faminto. Nunca tinha entrado num cinema. Não gostava e não gosto até hoje. Por acaso, soube que a MGM estava selecionando um crocodilo. Quando consegui encontrar o estúdio, as inscrições estavam encerradas, mas, como havia poucos candidatos, o supervisor decidiu me incluir. O teste era uma bobagem. Botavam você na margem de uma piscina e mandavam olhar fixo a câmera, contar até dez, mergulhar e espadanar água até gritarem “corta”. Havia outros três candidatos – dois que sonhavam ser atores e outro morto de fome como eu. Lá pelas tantas, um garçom serviu sanduíches de presunto à equipe e nem se lembrou de nos oferecer. Fui o último a fazer o teste. Os dois primeiros nem pareciam crocodilos – um olhou a câmera de lado, o outro, na piscina, parecia uma lombriga afogada. O terceiro não sabia contar até dez, mas foi convincente no espadanar. Eu só conseguia pensar no garçom e na bandeja de sanduíches ainda pela metade. Quando chegou minha vez, fixei a câmera pensando na fome que eu tinha, contei até dez e me imaginei arrastando o garçom pra dentro da água e sacudindo o cretino até ele soltar a bandeja. Me contrataram na hora.

Quem eu seria agora se não tivesse sabido do concurso? Ou mesmo se o tal garçom se lembrasse de nos oferecer uns sanduíches e eu fizesse o teste sem fome e sem raiva?

O que assusta é a percepção de quão pouco você determina a sua própria história.

Voltando ao caso das rabanadas. Aquele foi um dos raros momentos em que uma atitude minha alterou, de fato, minha trajetória. Talvez o momento mais significativo de todos. O curioso é que, mesmo nesses momentos em que a nossa atuação é decisiva, ela costuma ser inconsciente.

Foi uma reação intempestiva. Não me arrependo dela, pelo contrário, mas não foi uma escolha racional como deveria ser uma decisão tão importante. Enfim, acho que fiz a coisa certa, mas fiz por acaso, ou seja, mesmo quando você reage, atua e altera o rumo da sua vida, ainda é o acaso que determina como isso se dá.

Digo que fiz a coisa certa, porque aquela reação encerrou em boa hora minha carreira no cinema. Eu tinha juntado umas economias. Contratei o melhor advogado trabalhista de Los Angeles e arranquei da MGM um bom acordo de rescisão de contrato. Em LA, qualquer casa melhorzinha tem sua piscina. Com o dinheiro do acordo, montei uma firma de manutenção de piscinas e ganhei o suficiente para uma aposentadoria tranquila.

A trajetória cinematográfica de Tarzan entrou em declínio. Não por eu ter saído, é claro, mas também por isso. Eu representava o elemento selvagem, o contraponto da Chita, aquela macaca domesticada grotesca, típica da fantasia roliudiana de selva.

Então, no momento em que aconteceu eu não tinha a menor ideia disso, mas se não fosse o caso das rabanadas, talvez hoje eu estivesse passando fome como no início. E aí, outra vez, a gente se depara com a própria desimportância. A causa do ato mais decisivo da minha vida, o que criou a possibilidade de eu estar hoje aqui, nesta praia com você e não em algum esgoto de Los Angeles, foi só um calcanhar na virilha.

Isso mesmo, um calcanhar na virilha. E prefiro evitar a metáfora mais óbvia, porque não me agrada a comparação com o cavalo que precisa ser esporeado para avançar.

Como eu disse, o idiota do dublê, que mal sabia nadar, cismou de montar nas minhas costas. Ora, nós crocodilos somos pacientes – quem depende da imobilidade para caçar não pode ser de outro modo. Cada vez que ele montava eu me deixava afundar e a cena era cortada. O diretor já estava aos berros. Então, na quinta ou sexta tentativa, o babaca me enfia o calcanhar na virilha, como se eu fosse montaria lá da terra dele.

Paciência tem limite. Até a de um crocodilo. Sacudi o cara pro lado e desci o rabo nele.

Nisto, um assistente de produção, que – depois vim a saber – era primo do aprendiz de caubói e foi quem arranjou o bico de dublê pra ele, se enfia lago a dentro, com uma vassoura na mão. Não esperei pra ver o que ele pretendia com a vassoura, mandei o rabo nele também.

O texano saiu com três ou quatro costelas quebradas, o primo dele com duas ou três, não sei ao certo, só me lembro, por causa do processo, que no total foram seis. Eu saí do lago e nunca mais entrei num set de filmagem.

Saudade da fama? Nenhuma. Uma das vantagens de ser réptil é que você nunca perde o contato com o chão. A fama é um gás leve que sobe fácil à cabeça de um bípede, mas não à de um crocodilo.

E o charme de fazer cinema? Fantasia de quem nunca fez. Uma filmagem é um surto de histeria coletiva sem hora pra começar nem pra terminar. Passei a viver muito melhor cuidando da minha pequena empresa, escolhendo meu próprio horário de trabalho, sem diretor, produtor, astro, estrela, agente ou patrão nas minhas costas.

Há oito anos, me aposentei. Vendi minha empresa e vim morar no Rio. Gosto do clima úmido e quente daqui.

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