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poemas de Amanda Vital

broto

em 1965 joão cabral de melo neto dizia que a poesia
era como catar grãos de feijão que boiavam na água
nos tempos de vó não se catava feijão assim: sempre
era encher três mãos dentro do saco de juta despejar
tudo em cima da mesa e dedilhando pedra por pedra
milho por milho fazia um pequeno monte no colo em
cima do vestido para levantar a barra da saia jogar no
lixo lavar o que sobrou na bica ao lado das pastagens
aproveitar completar a panela para deixar cozinhando
ao redor do fogão as meninas aprendiam pelos olhos
medir a água contar o tempo macerar o alho com sal
e refogar com banha de porco o feijão da vó era feito
de um silêncio mineiro de fazer qualquer poesia ficar
só espiando na ponta dos pés pela janela dos fundos

costura

mãe, hoje eu vi o mar: parecia um lençol de seda
que avó abanava e quando estendia sobre a cama
sempre ficavam algumas preguinhas ela precisava
puxar com cuidado deixando liso sobre o colchão
a maré também evita preguinhas por cima da areia
o mar é um bocado de avó perfeccionista de gênio
instável a estender um imenso tecido infinito para
cosê-lo: o mar afinal é uma avó abanando as águas
em viscose azul em tafetá turquesa em seda verde
espetando barcos em pequenas almofadas de areia
um ventilador atrás da nuca a assoprar suas ondas
os pés no pedal: os pés nos pedalinhos: duas mãos
deslizando numa bancada de granito a desfazer-se
entre os dedos: uma fita métrica anil no horizonte:
mãe, hoje eu vi o mar e meus cabelos têm retalhos

recruta

tenho recusado os convites para servir a exércitos
peço perdão aos amigos mas me doem os braços
de tanto vestir seus uniformes me trocar destrocar
tenho pedido tréguas e assisto calada às batalhas
peço perdão aos amigos pela infidelidade a tantos
belicismos que lhes cabem crescem calos dentro
das botas e minhas mãos ardem feridas de lixívia
removendo as manchas enquanto houver sangue
no tecido dos uniformes fico só me lembrando de
como suas pátrias se reerguem tão depressa e eu
acabo nas trincheiras com os tímpanos explodidos
e a boca suspirando o cansaço aberta às formigas

vê se tá bom de doce

se não tiver ainda dá tempo de pôr mais açúcar
e misturar até desaparecerem os grumos ao lume
brando sempre brando para cozinhar bem o creme
enquanto deixo uma colher de pau vigiar o fundo
da panela: um olho no tacho e um olho na língua
busco nas semanas onde guardei a canela o cravo
aquele limão que roubamos da última casa quando
voltamos do café talvez umas lascas daquilo mas
ainda não está pronto sinto que ainda falta uma
outra coisa uma provocação diferente às papilas
por mais que me aguente bem na frente do fogão
eu preciso mesmo é de uma colher e da tua boca
certa precisa me dizendo furos à condensação do
ar me dizendo se o que tu raspas daqui é doçura

Amanda Vital é editora-adjunta da revista Mallarmargens, mestranda em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa e estagiária na editora Ponto de Fuga. Autora dos livros de poemas Lux (Penalux, 2015) e Passagem (Patuá, 2018). Tem poemas e traduções em revistas, jornais e suplementos literários do Brasil e de Portugal, além de publicações em antologias. Foi uma das curadoras da 4ª edição da coletânea Carnavalhame (2020) e participou, junto da revista Mallarmargens, da organização do “9º Raias Poéticas: Afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento”, apoiado pela Câmara Municipal e pela Casa das Artes de Famalicão, em Portugal, com curadoria de Luís Serguilha, Marcelo Ariel e Nuno Rau. Foi uma das curadoras do “1º Templo D’Escritas: Festa Literária Internacional da Língua Portuguesa”. Organizou e editou antologias através do selo da revista Mallarmargens.

poemas de Lila Maia

CENAS DO ATERRO DO FLAMENGO

João é mudo.
                           Tereza surda.
João está sempre gesticulando
como se tivesse aves repentinas nas mãos.
Tereza lembra paisagem: atenta, alheia.
Uma vez os vi abraçados,
mas logo se tornaram rosas vermelhas.
João batia no peito e muitas penas voavam.


 Tereza tem a força do mar.

CONJUGAÇÃO

Um quadro de Van Gogh
ou um verso de Cecília
não tiram de mim a imperfeição.
Sei quando a noite é insulto
e que não terei à minha porta as quatro estações.
Nem os deuses, nem as salamandras com seus poderes
hão de me livrar do cansaço, dos punhais,
deste céu escuro, atormentado.


Aquilo que mais sei sempre me atravessa,
não se eterniza.
Ainda que eu saiba a cor dos meus desejos
continuo bebendo desta taça funda,
mas não darei nome a tanta sede.

FEROCIDADE SÚBITA

Escancarados passos dou em nome da paixão.
Sem nenhum tato o fogo avança
me devora cego
depois me acorda estou só e degolada.
Entre pernas, dedos,segredos,
o espaço desgrenhado do quarto.
Não dá para confundir ais e bem-te-vis
nem a braguilha aberta da calça.

Com o beijo, com a faca,
quase a um palmo da paixão,
te corto às cegas, sem memória.
O que respinga do quarto não é sangue,
é a minha boca molhada, acesa e sã.



FELICIDADE


Toma, homem,
este é meu corpo.
Barco a vela
como qualquer embarcação.
Nas marés da sorte,
a maturidade de ir dominando o fogo.
Os enganos não enganam mais.
Gosto deste ai não lírico,
do meu jeito cigano de nunca mais acreditar.


Toma, homem,
estas batidas mínimas.
O que chamo amor está em Bangcoc, Beirute.
E visto a roupa porque espero o galope lento, lento das palavras.

A poesia pode tudo.

poema de Carlos Orfeu

 luz: mãos   

    

1.

a luz – partículas
indivisíveis

                  exígua
                  flama

incêndio de poros
nas mãos que dormem

:em câmera lenta

                       acordam
                       estalam

os ossos da noite
para a exaustão do dia

2.

os dedos acesos
são fósforos

alçam o início
do fogo – roçam
na língua do dia

3.

quatorze falanges: mais treze
ossos e toda uma mecânica
espantosa – faminta
feroz pelo tato: isto é a mão

se movê-la debaixo da luz
o ângulo será outro: a mão
será outra diante do campo
sensível do olho

4.

a luz encontrará num desvio
montagem – coreografia de
janelas
frestas: rachaduras para
adentrar o corpo com o sol e seu grito
de níquel: hélio esparramado
no espaço que certamente se
deformará nos andaimes
do hálito: entrecortada
a fala se abrirá como o pão
ou rosa num velho jarro

Carlos Orfeu habita em Queimados, Baixada Fluminense. Lançou o livro Nervura ( 2019) e invisíveis cotidianos (2020), ambos pela Editora Patuá.