Bojangles e as quebras de barreiras raciais

por Alexei Henriques

Bill Bojangles Robinson (1878-1949) talvez seja o sapateador americano mais importante da história. Sua importância é tão grande que o dia internacional dessa dança é comemorado no dia 25 de maio, dia do seu nascimento. Há diversos motivos para isso: ele foi muito famoso e admirado por inovar com um estilo próprio que influenciou o sapateado americano prementemente o trazendo para a meia ponta e possibilitando que mais sons pudessem ser feitos, além de deixá-los com mais clareza e mais leveza e ele ainda quebrou várias barreiras raciais que existiam em sua época. E é um pouco sobre essas barreiras raciais que nós vamos falar hoje. 

Bill Bojangles Robinson perdeu os pais por volta dos 6 anos de idade e foi criado pela avó que chegou a ser escravizada no início da vida. Ele começou a vida artística ainda criança nas ruas, em frente a teatros e também teve outros tipos de trabalhos como caixa de teatro, vendedor de jornal e jockey. Entrou para o vaudeville na década de 1890 e chegou a participar tanto da Guerra Hispano-Americana em 1898 (onde levou um tiro acidental de seu segundo-tenente) quanto da Primeira Guerra Mundial. 

Em 1902 Bojangles formou uma dupla com o artista George W. Cooper e juntos eles dançaram nos circuitos de vaudeville branco e negro. Os vaudevilles eram separados entre os circuitos brancos (de artistas brancos para plateia branca) e os circuitos negros (de artistas negros para plateia negra). Os artistas dos circuitos de vaudeville branco eram melhor remunerados e a maioria dos poucos artistas negros que conseguiram entrar para os circuitos brancos usavam o recurso do blackface para que a plateia pensasse que eles eram brancos pintados de preto. Essa foi a primeira barreira racial quebrada pelo Bill Robinson: a dupla Bojangles e Cooper conseguiu fazer parte desse circuito branco sem precisar utilizar esse artifício. 

Em 1908, Bojangles conheceu o empresário Marty Forkins que o incentivou a formar seu ato solo e ele administrou a carreira de Robinson até o final da sua vida. Para entrar nos circuitos de vaudeville, os artistas normalmente se juntavam com outros artistas formando duplas, trios, quartetos; era muito comum haver irmãos e famílias se apresentando nos teatros. Quem tinha um ato solo era porque já estava com sucesso e, principalmente: esse artista era branco. Essa foi outra barreira racial quebrada por Bojangles, ele foi talvez o primeiro negro a conseguir criar uma carreira solo de sucesso nos circuitos de vaudeville. 

No decorrer dos anos seguintes ele fez muito sucesso em circuitos como Keith e Orpheum, o maior circuito de vaudeville da época e no TOBA, o maior circuito de vaudeville negro. Ele fez turnês por todo os EUA lotando teatros, trabalhava praticamente todos os dias da semana fazendo mais de um show por dia e chegou a ser a estrela principal no Palace Theater em NY, que era considerado o mais importante teatro de vaudeville. Esse teatro pertencia ao circuito Keith, ficava na Broadway, bem em frente a Time Square e ele funciona até hoje (agora com grandes produções musicais da Broadway).

Após muitos anos de turnê pelo país, Bojangles fixou residência no Harlem, em Nova York, no ano de 1928 para participar do musical “Blackbirds”. Ele era a principal atração do musical que fez um enorme sucesso com apresentações lotadas e ficando mais de um ano em cartaz. Foi em “Blackbirds” que o seu número sapateando nas escadas ficou extremamente popular e foi nesse musical também que ele apresenta seu número chamado “Doin’ The New Low-Down”, que hoje se tornou uma coreografia de repertório dançada por muitos sapateadores. A música de mesmo nome foi composta especialmente para Bill Robinson e foi seu solo de estreia na Broadway. 

Nessa época Bojangles, então, já era super popular, aceito tanto no meio dos brancos como no dos negros e ele também era o artista negro mais bem pago do mundo. Quando ele entra para Hollywood, Bojangles passa a se tornar internacionalmente famoso, mas seu sucesso nos EUA já havia acontecido muito antes disso. É importante dizer aqui que, durante as décadas de 30 e 40, a maioria dos melhores sapateadores negros dançavam nas casas noturnas, tão populares àquela época, e poucos conseguiram entrar no cinema, que era predominantemente ocupado por estrelas brancas. 

Seu primeiro filme foi “Dixiana” de 1930 onde ele fez uma participação. Em 1932, no filme “Harlem is Heaven”, Bojangles se torna protagonista e apresenta seu número sapateando na escada que havia feito muito sucesso no musical “Blackbirds”. Esse filme é muitas vezes tido como o primeiro filme com um elenco totalmente negro.  Mas seu sucesso internacional veio mesmo a partir de 1935 com os filmes onde ele dança com aquela que é considerada como a atriz mirim mais famosa de todos os tempos: Shirley Temple. Juntos eles fizeram 4 filmes e seus números mais famosos são as danças onde eles sapateiam nas escadas, pois isso já havia se tornado uma marca de Bojangles. Em um desses filmes, no “The Littlest Rebel” (1935), Bill Robinson dança o “Doin’ The New Low-Down”, seu solo de estreia na Broadway, mas com uma outra música. A química de Bojangles com Shirley Temple foi muito boa, tanto dentro quanto fora das telonas. Ele possuía muito orgulho dela e ela muito respeito e admiração por ele. 

Naquele tempo era proibido que um artista negro dançasse ou contracenasse com uma artista branca nos filmes. Mas, como Shirley Temple era criança, essa parceria acabou sendo permitida e os dois se tornaram, então, os primeiros parceiros de dança inter-racial de Hollywood e foi a primeira vez que um personagem negro se tornava responsável por uma criança branca no cinema. Essa foi outra importante barreira racial quebrada por Bojangles.  Em algumas salas de cinema do sul dos EUA, as cenas de muito desses filmes em que Bojangles contracenava com Shirley Temple foram cortadas por conta desse preconceito da época. 

Quando Bill Robinson dançava no vaudeville, seu traje típico era bem elegante, com fraque ou terno, luvas, cartola e bengala. Sua intenção era elevar a condição do artista negro, tirando-o do estereótipo do negro tribal. Mas quando ele foi para o cinema, seus personagens eram quase sempre de escravo ou serviçal. Seus papeis eram, muitas vezes, estereótipos racistas, e Bojangles acabou sendo muito criticado por isso. Ele disse uma vez que aceitara os papeis, pois era preciso dar um passo atrás para ir à frente. Ele tentou se desvencilhar desses trajes simples e chegou a ser cogitado a dançar com Eleonor Powell, mas o par acabou não acontecendo. No longa chamado “Cafe Metropole” (1937), ele consegue gravar um número com o traje elegante, característicos dele no vaudeville, num filme com elenco branco. Mas essa cena foi cortada nos últimos momentos de edição, por conta desse tabu e do medo que se tinha de colocar a pessoa negra num patamar mais elevado. Um dos poucos filmes que ele consegue fugir dos estereótipos racistas é “Hooray for Love” de 1935, onde ele dança com a sapateadora Jeni Le Gon. 

Em 1943, Bojangles protagoniza seu 14º e último filme chamado “Stormy Weather”. Esse longa, apesar de também carregar alguns estereótipos, teve uma relevância para a conscientização da importância da cultura afro-americana e sua história é quase uma homenagem ao Bill Robson, onde ele faz um personagem levemente baseado em sua própria vida. Falo um pouco mais sobre um número de dança específico desse filme no texto “O Melhor Número de Dança da História”. 

Fora das telas, durante as décadas de 30 e 40, Bojangles esteve muito presente nas casas noturnas do Harlem como o Cotton Club, além de participar de vários shows da Broadway, gravações e programas de rádio e televisão. Em seus shows, Robinson, além de sapatear, também cantava, usava sua habilidade de fazer som de trompete com a boca, contava piadas e contava histórias. Ele era muito carismático, bem humorado, sempre com aquele sorriso típico dele que conquistava a plateia. Nessas contações de história, ele sempre usava sua famosa frase: “Everything is Copasetic”. Isso significava algo como “está tudo bem”, “tudo certo”, “tudo ok”. Após a sua morte, vários sapateadores se juntaram e formaram um importante grupo com o nome “Copasetics” para que a memória de Bojangles não fosse esquecida, falarei um pouco mais sobre esse grupo em breve.

Em 1939, Bojangles fez parte de um musical chamado “The Hot Mikado” que, além de ter ficado em cartaz na Broadway, também fez parte da Feira Mundial de Nova York que acontecia naquele ano, sendo um dos maiores sucessos da feira. E em 1940, no musical chamado “All in Fun”, Robinson faz outro marco, se tornando o primeiro afro-americano a estrelar como principal em um musical totalmente branco na Broadway. Foi um marco importante, apesar do musical não ter feito sucesso. 

Bojangles foi o artista negro mais bem pago do mundo na primeira metade do século XX. Mas, apesar disso, ele morreu pobre e cheio de dívidas. Isso porque Bojangles se sentia responsável pela comunidade em que vivia, ele doava muito dinheiro e foi famoso por sua grande generosidade. Ele ajudou inúmeros artistas (negros e brancos), enfermos, instituições de caridade e organizações locais. Ele realizou mais de 3000 ações beneficentes e, apesar de ter uma grande carga de trabalho, não se recusava a comparecer aos eventos beneficentes. 

Além dessas doações, Bojangles também ajudou em melhorias para o bairro do Harlem, pagando para construírem um semáforo perto de uma escola e também ajudando a construir um pequeno parque com brinquedos para crianças, próximo ao local onde ele morava. Hoje o parque recebe o nome de Bojangles e, desde a década de 1990, há um mural ilusionista com a imagem desse grande artista.

Por conta de todas essas contribuições filantrópicas, Robinson foi nomeado prefeito honorário de Harlem na década de 30. E ele usou essa influência para salvar a histórica “Árvore da Esperança” que ficava em frente ao Lafayette Theater. Havia uma superstição que dizia que o artista que esfregasse nessa árvore ganhava muita sorte. A árvore foi destruída, mas Bojangles conseguiu preservar o toco de almo do tronco da árvore com uma placa comemorativa. Ele também foi membro vitalício de associações de policiais e conseguiu persuadir o Departamento de Polícia de Dallas a contratar seu primeiro policial negro. Fã de beisebol, Robinson era mascote da liga principal do New York Giants e ele co-fundou, em 1936, a equipe do New York Black Yankees com sede no Harlem.

Bojangles faleceu dia 25 de novembro de 1949 aos 71 anos. No dia do seu funeral, as escolas do Harlem ficaram fechadas como forma de luto, seu caixão foi carregado do Harlem até o cemitério Evergreens, no Brooklin, descendo a Broadway e passando pela Time Square. Estima-se que mais de um milhão de pessoas acompanharam o cortejo, dentre elas vários grandes artistas e políticos famosos, tendo sido o maior funeral da história de Nova York. 

Essas foram algumas das contribuições de Bojangles. Ele foi de extrema importância para o sapateado americano e para a cultura norte-americana de forma geral. Por isso, então, que desde 1989 comemora-se o dia internacional do sapateado no dia de seu nascimento: dia 25 de maio.

Referências:

Vídeo com o número de sapateado na escada do filme “Harlem is Heaven” de 1932 – https://www.youtube.com/watch?v=vj1KYaCIA5o


Vídeo de Bill Bojangles com Shirley Temple no filme “Little Colonel” de 1935 – https://www.youtube.com/watch?v=wtHvetGnOdM

Documentário televisivo de 1997 do programa “Biography” produzido pela “A&E Networks” sobre Bill Bojangles – https://www.youtube.com/watch?v=UWtImcRU_ug

Livros:

– LEWIS, Liza. Sapateado: Fundamentos e Técnicas. Tradução de Marcia Di Domenico. 1ªed. Barueri: Manole, 2016.

– LUDUEÑA, Miguel Angel. TAP: Uma Mirada desde el hemisfério sur. 1ªed. Buenos Aires: Lud Editor, 2010.

– MACHADO, Amália e SALLES, Flávio. TAP: A Arte do Sapateado. 1ªed. Rio de Janeiro: Editora Addresses, 2003

– MARTIN, Cintia. Toques: Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2010.

Sites:

– Blackbirds of 1928. Internet Broadway Database. Disponível em: https://www.ibdb.com/broadway-production/blackbirds-of-1928-10390 . Acesso em 10/2020

– Black Work Broadway. Disponível em: https://blackworkbroadway.com/Lew-Leslie-s-Blackbirds-1930 . Acesso em 10/2020

BLAIR, Elizabeth. Shirley Temple And Bojangles: Two Stars, One Lifelong Friendship. National Public Radio. Disponível em: https://www.npr.org/2014/02/14/276986764/shirley-temple-and-bojangles-two-stars-one-lifelong-friendship . Acesso em 10/2020

– ESCHNER, Kat. Three Ways Bill “Bojangles” Robinson Changed Dance Forever. Smithsonian Magazini. Disponível em:

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/bill-robinson-king-of-tap-180963332/ . Acesso em 10/2020

– HARPER, Steven. Apostila de conteúdo e referências Para a Prova Teórica de Sapateado. Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https://spdrj.com.br/wp-content/uploads/sites/150/2019/09/APOSTILA-DE-SAPATEADO.pdf . Acesso em 10/2020

– Hill, Constance Valis. Tap Dance in America: A Short History. Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/ihas.200217630/#:~:text=Tap%20dance%20is%20an%20indigenous,United%20States%20in%20the%201700s. Acesso em 10/2020

-PADGETT, Ken. Bill Bojangles Robinson (1878-1949). Blackface!. Disponível em: http://black-face.com/Bill-Bojangles-Robinson.htm . Acesso em 10/2020

Documentários:

– AMERICAN TAP. Direção: Mark Wilkinson. Produção de Annunziata Gianzero, Rayne Marcusm e Elka Samuels Smith. Estados Unidos: Ivy Media Group Inc., 2018.

– BILL BOJANGLES ROBINSON. Programa de TV: Biography. Produzido pela “A&E Networks”, 1997.

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