Whitman Sisters

por Alexei Henriques

Como já foi dito em outros textos aqui no site, apesar do sapateado possuir origens e ter se desenvolvido principalmente com o povo negro americano, essa arte acabou ficando internacionalmente famosa com várias estrelas brancas de Hollywood. Por conta do racismo e das leis segregacionistas ainda existentes nessa época, os artistas negros não puderam ter o mesmo prestígio dos brancos. Essa segregação faz parte da história americana e, consequentemente, do sapateado. Essa divisão racial foi muito presente do decorrer do tempo com o minstrel show, o vaudeville e o cinema.

Se as oportunidades e condições do homem negro daquela época eram muito baixas, a vida da mulher negra era ainda mais difícil. Há muitas mulheres negras sapateadoras na primeira metade do século XX, mas, hoje em dia, poucos já ouviram falar sobre alguma delas. Nesse texto aqui, nós falaremos sobre 4 irmãs de enorme importância para a dança e os shows de vaudeville da época: as Whitman Sisters. Uma dessas irmãs talvez tenha sido uma das primeiras mulheres negras a ser solista, ganhar dinheiro e fazer sucesso com o sapateado nos EUA: Alice Whitman. 

As Whitman Sisters começaram, ainda bem jovens, no final do século XIX, se apresentando em igrejas, pois seu pai, Albery Whitman, era pastor. Elas começaram a fazer algum sucesso, se apresentando em vários locais diferentes e chegaram a ser convidadas pelo George Walker, um grande produtor do vaudeville, para fazer parte de sua companhia. Mas o pai delas recusou o convite, pois queria que elas terminassem os estudos. 

No ano de 1900, as 3 irmãs mais velhas começam a se apresentar no vaudeville sob a gerência do pai com o nome “Whitman Sisters”. Mas em 1901 o Albery morre aos 50 anos de idade e, a partir desse momento, a companhia faz sua primeira inovação com uma mulher no comando, pois o grupo passa a ficar sob gerência da mãe delas, Caddie Whitman, e naquela época isso não era comum. Nesse ano de 1901, a filha mais velha, Mabel (1880-1942), tinha 21 anos, seguida pela Essie (1882-1961), com 19 anos, Alberta (1887-1963), com 14 e a mais nova, Alice (1900-1969), com apenas 1 ano de idade. 

As irmãs eram negras de pele clara e, com isso, elas conseguiram fazer parte dos circuitos de vaudeville branco. Elas pintavam a cara de preto (blackface), tingiam o cabelo de loiro e usavam peruca, com o intuito de confundir a plateia. Ninguém sabia se elas eram brancas fingindo serem negras ou negras fingindo serem brancas ou morenas fingindo serem loiras ou vice versa. Dessa forma, elas conseguiram crescer e fazer parte do vaudeville branco. Mas foi a partir de 1909, após a morte da mãe delas, sob direção da Mabel Whitman, a filha mais velha, que a companhia realmente começou a crescer se tornando uma das mais importantes do vaudeville. Mabel Whitman tinha fama de durona, destemida, persistente e controladora. Controlava a vida dos integrantes da companhia dentro e fora do palco tratando seus membros como uma família. As 4 irmãs viviam entre o mundo religioso e secular. Elas continuaram a se apresentar em igrejas até o final da vida, mesmo fazendo parte do vaudeville. Naquele tempo, mulher artista era vista como vulgar e fora dos padrões tradicionais religiosos. Mas as irmãs quiseram manter essa relação com o religioso buscando sempre por respeito e admiração. Era comum haver crianças e adolescentes nos circuitos de vaudeville e, com essa fama de comportamento rígido maternal da Mabel, as mães desses jovens confiavam em deixá-los sob sua tutela. Muitos grandes artistas começaram e desenvolveram suas carreiras graças a elas, como Count Basie (pianista de jazz), Willie Bryant (líder de banda e vocalista), Lonnie Johnson (pioneiro na guitarra de jazz, lenda do jazz e do blues), Clarence “Pinetop” Smith (tocou em uma das primeiras gravações do estilo “boogie woogie”) e a atriz e cantora Ethel Waters, além de grandes sapateadores como os Berry Brothers, Bunny Briggs, Jeni Le Gon, Eddie Reitor e Leonard Reed. Inclusive, foi durante o período que Leonard Reed trabalhava na companhia das Whitman Sisters que o Shim Sham foi criado, com a coreografia tendo recebido total influência de uma das irmãs, a Alice Whitman. 

As Whitman Sisters sempre foram leais à comunidade afro-americana. Elas exigiam que o público negro pudesse sentar em qualquer lugar (era comum naquela época em diversos teatros que as cadeiras centrais fossem reservadas apenas para pessoas brancas, enquanto os negros ficavam nos fundos ou nas arquibancadas ou nem mesmo eram permitidos a entrar) sendo, em muitos teatros, a primeira vez que isso acontecia. Além disso, apesar das irmãs Whitman terem conseguido participar dos circuitos de vaudeville brancos, elas optaram, de forma deliberada, no início da década de 20, a fazer parte do TOBA, o principal circuito de vaudeville negro, mesmo ganhando menos. Elas se tornaram as “Rainhas do TOBA” sendo uma das maiores, a mais longeva e a mais bem paga companhia desse circuito. 

Alice Whitman, a irmã mais nova da família, começou dançando desde criança e ela era chamada de Baby Alice Whitman. Apesar das 4 irmãs cantarem e dançarem, cada uma tinha uma função predominante na companhia. A Mabel era a gerente do grupo, a Essie era cantora e figurinista do grupo, a Alberta era compositora e dançarina e a Alice era a dançarina, sapateadora e a estrela principal das apresentações. Dançarina ágil, possivelmente a primeira sapateadora solista negra do vaudeville e responsável pelo crescimento de diversos sapateadores que passaram pela companhia, incluindo seu filho Pops Whitman que também fez parte da companhia. A sapateadora Jani Le Gon disse uma vez: “ela era a melhor, melhor do que Ann Mille, Eleonor Powell, eu ou qualquer outra pessoa”. Além disso, outra inovação que as irmãs trouxeram foi com um dueto que a Alice Whitman fazia com um personagem chamado Bert, um homem elegante. Esse homem era, na verdade, sua irmã Alberta com trajes masculinos sendo, talvez, uma das primeiras mulheres travestidas de homem nos palcos americanos. 

A companhia durou de 1900 até 1943 (um ano após a morte da Mabel Whitman), chegando a ter dezenas de artistas trabalhando junto e fazendo sempre muito sucesso, mesmo depois que o vaudeville já havia praticamente terminado. Em 1961 aconteceu um incêndio na casa das irmãs matando Essie e destruindo muitos materiais, registros, programas, partituras e fotografias. Elas não fizeram nenhum filme, quase nenhuma gravação (há apenas algumas feitas por Essie nos anos 20) e, por conta disso tudo, hoje há poucas informações sobre elas. Mas sabe-se que seu sucesso foi enorme e que elas são de grande importância para a história do entretenimento americano. Na década de 60, as irmãs fizeram uma entrevista para o Marshall Sterns, um historiador de jazz, que escreveu o livro “Jazz Dance”, onde ela foi publicada. 

Hoje vimos, então, um pouco sobre a história dessa família tão importante que quebrou várias barreiras sociais, raciais e de gênero, divertindo diferentes públicos: brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres. Alice Whitman era considerada a “Rainha do Tap” e Mabel Whitman foi a única gerente mulher negra de seu tempo fazendo das Whitman Sisters Company uma das mais importantes companhias do vaudeville americano. 

Referências:

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