A mulher do rio

João Paulo Vaz

Ela veio trazida pela correnteza.

De manhã bem cedo, depois que a chuva parou e as águas do rio baixaram, Mauro se assustou ao ver de longe – desconjuntado, enganchado na galharia morta transbordada pela cheia – o corpo da afogada. Quando, mais de perto, percebeu que era uma boneca, o susto já havia disparado nele a sensibilidade precisa que a vizinhança da morte produz.

Uma boneca enorme de pano grosso, enlameada, quase do seu tamanho. De roupa, só a blusa curta vermelha, desbotada, e um pé de meia de seda mal pendurado na ponta da perna esquerda – pé sem calcanhar, de boneca de pano. A cabeleira preta desgrenhada e o corpo branco seminu davam um traço obsceno à manhã cinzenta sem pássaros, sem gente, sem outra voz que a do rio correndo turvo, encachoeirado, desconfortável em suas margens.

Não havia razão que justificasse afundar os pés na lama da margem e resgatar a boneca do emaranhado de galhos, menos ainda repor com dificuldade a única meia e carregar até em casa o corpo encharcado de águas noturnas. Mas a marca da primeira visão – a mulher afogada – impediu Mauro de deixá-la onde estava.

A chuva recomeçou. Não grossa como durante a noite. Uma garoa criadeira, do tipo que vem e fica dois dias. Mauro pendurou a boneca na cerca, para que se lavasse da lama do rio. Antes, despiu constrangido o que restava de roupa nela – a blusa, a única meia – peças comuns usadas, de gente. Uma mulher de verdade haveria algum dia vestido aquela blusa, calçado aquela meia, talvez seduzido um homem para quem as despira devagar na penumbra de um quarto fechado.

O sol voltou no terceiro dia – sol duro da serra, ardido e próximo. Mauro manteve a boneca onde estava, agora para secar. De vez em quando se lembrava dela e trocava de posição o corpo dobrado sobre a cerca. Cheirava a umidade. À noite, guardou a boneca na varanda, a salvo do orvalho, e tornou a deixá-la ao sol nos dias seguintes. Quando o cheiro de umidade já não passava de uma lembrança vaga do rio, ele a deitou numa das duas redes da varanda – a que havia sido de Licinha. Da outra, costumava vigiar o final da tarde. E a boneca foi ficando ali, uma espécie de companhia ao cair da noite, ouvinte silenciosa do diálogo mudo entre ele e ele mesmo sobre os acontecimentos do dia e as interrogações de sempre. Mauro se dava a cismas nessas horas. E, entre elas, mais uma: o passado daquela boneca. De onde teria vindo? Mal vestida de gente e daquele tamanho de mulher de verdade, não parecia brinquedo de criança. Mas o que haveria de ser, então?

Rio acima não se chegava a mais de dois lugarejos: Lajeão e Passo-da-Onça – esse último já encarapitado na serra, o rio próximo das nascentes, pouco mais que um riacho. Improváveis origens de um brinquedo daquele, ou o que fosse. De tanto não conseguir inventar explicação, num domingo Mauro preparou farnel e ganhou estrada com a boneca nas costas como se fosse mochila, as pernas em volta da cintura dele, os braços por cima dos ombros, mãos e pés amarrados na frente com os cadarços de um par de botinas velhas. A cabeça pendurada, balançando a cabeleira preta, ia olhando o mundo de ponta-cabeça e o caminho de trás pra diante. Assim chegaram ao Lajeão antes do meio-dia, e o povo desocupado não precisou de meia hora para pôr nele o apelido de mula-de-boneca, que só não pegou por comprido demais. E porque, em se tratando de Mauro, o estranho não surpreendia tanto. Fama de esquisito ele já granjeara antes de andar com boneca nas costas. Desde o tempo em que Licinha havia se mandado para o Rio de Janeiro.

Foi perguntando a um e outro se sabia de quem era a boneca. Não sabiam nem nunca tinham visto igual. Mas na falta de informação e do que fazer com a tarde de domingo recém-começada, o povo encompridava conversa com histórias de enchente e boatos sobre a vida alheia. Na saída mesmo do Lajeão, contaram sobre um tal Ribamar, velho de miolo mole e sangue ruim, que vivia recolhido depois do Passo-da-Onça, perto de uma das nascentes do rio. Há anos morava com ele uma moça, diziam que à força, pois outra explicação não podia haver para mulher bonita viver encafuada no mato com aquele traste, que nem rico era. E mais: que a tal moça tinha sumido depois da última chuva forte. Fugida – garantiam uns. Morta pelo velho – cochichavam outros – a imaginação correndo solta entre o final do almoço e a hora da sesta.

Mas Mauro não estava à cata de histórias. Escutou o tempo mínimo que a cortesia manda, comeu metade do farnel, tomou uma cerveja e retomou a estrada.

Em menos de três horas alcançou o Passo-da-Onça, resto de povoado de um tempo em que tropas de mulas despejavam ouro de Minas em Parati e passavam por lá na travessia da Bocaina. Um lugar de nada, de gente de poucas palavras que nunca soubera daquela boneca ou outra parecida. Mauro conversou o pouco que aquele povo arredio aceitava, e o certo seria pegar caminho de casa, aproveitando o embalo da descida para chegar antes de anoitecer. Mas a luz da tarde na encosta da serra deu nele um impulso de continuar subindo, de procurar origens, como se a do rio e a da boneca pudessem ser a mesma. Não faltava muito, de qualquer forma.

A estrada virou trilha cada vez mais íngreme acompanhando o leito do rio que afinava entre as pedras. Também o ar da serra, à medida que Mauro subia, ia ficando mais fino. A tarde já se adiantava quando ele alcançou o ponto em que a água formava um remanso. Resolveu se acocorar na beirada e comer o resto do farnel. Ia voltar no escuro, de qualquer modo. Não havia pressa.

Comeu cismando, como era seu hábito. Num tempo em que ainda não sabia de onde vinham as crianças, a mãe dizia que o encontrara numa cesta, na beira do rio, trazido pela correnteza, como Moisés. Também como a boneca.

O pensamento demorava nessa coincidência quando, de repente, veio de trás dele um estrondo, e a água borbulhou na sua frente. Chumbo grosso de espingarda de caça. E estavam atirando era nele. Não esperou o segundo. Atravessou o riacho em dois pulos e caiu no mato.

Assim que se achou a distância segura, deu uma olhada para ver se alguém vinha atrás. Não vinha. Na outra margem, um sujeito de barba grisalha, com uma espingarda de cano duplo na mão, arrastava pelos cabelos a mulher de pano, aos berros: “Vadia! Vagabunda!”

Velho maluco da porra! Havia de ser o tal Ribamar. Vai ver a boneca era dele. Ou delirava com a moça fugida. Dor-de-corno às vezes endoida um – disso Mauro sabia. Já não tinha ele mesmo, por culpa de mulher, viajado um tempo na borda da loucura?

Esperou imóvel, acompanhando de ouvido a cantilena raivosa do outro ir se diluindo no murmúrio do riacho até desaparecer trilha acima. Deu mais um tempo, saiu do esconderijo sem fazer barulho e tomou caminho de volta. Nem pensou em cobrar satisfação por conta do tiro. Com doido não se discute. Mas ia incomodado. Depois de tanto carregar a boneca, a sensação de que lhe haviam tirado alguma coisa pesava mais do que ela. E, à medida que o susto passava, crescia a raiva. Que história era aquela, afinal? Podia estar agora com as costas cheias de chumbo, e ia deixar por isso mesmo? Diminuiu o passo.

Então uma loucura tão grande quanto a do outro se instalou na cabeça de Mauro: raptar a boneca. A idéia surgiu primeiro como brincadeira, mas forte o suficiente para que ele desse meia-volta e subisse a trilha sorrateiro até encontrar e se pôr na espreita da única toca de gente naquele fim de mundo. Tapera de um cômodo só, o quartinho da privada num canto do terreiro de chão batido, um galinheiro desmantelado no outro. Vigiou. Da casa, vinha um resmungo monótono, de vez em quando um vulto passava na janela. Mais doido que o doido lá dentro só ele, Mauro, de tocaia do lado de fora, o dia querendo acabar. Mas, a essa altura, mesmo que uma parte dele ainda pensasse claro, outra maior sabia com certeza que não saía de lá sem a boneca.

O velho apareceu na porta desamarrando as calças, atravessou o terreiro e se enfiou no quartinho. Sem pensar, Mauro entrou rápido na casa. Escurecia. Custou a enxergar a boneca. Mal avistou o branco dos braços passou a mão num deles e tomou a direção da porta. Só que a boneca não veio. O braço escapuliu da mão dele num safanão e ela não saiu do lugar. Resolvida a ficar? Um susto atravessou a respiração dele. Então entendeu: o maluco a havia amarrado num dos troncos de sustentação do telhado. A corda em volta do pescoço dela. Começou a desfazer nós com os ouvidos na porta e o coração nas mãos. Suava. Mais doido que o doido. E a espingarda, cadê? Se o sujeito entrasse, precisava dar um tranco nele antes que chegasse até ela. Desatou o último nó, desenrolou a corda do pescoço da boneca, correu porta afora e trilha abaixo. Só parou depois do Passo-da-Onça, arfando, rindo engasgado, capaz de gritar de alegria se não estivesse sem ar.

Tinha perdido os cadarços com que, na ida, prendera a boneca. Voltou com ela nas costas, segurando os braços passados sobre os ombros, as pernas dela roçando as dele no balanço da caminhada.

A noite caiu fresca, de céu claro. O escuro da mata cresceu na margem da estrada, pontilhado de pequenas flores brancas e roxas dos manacás. Um perfume simples, doce, espalhou de repente no ar a lembrança de Licinha. Distraído, cansado do dia, Mauro se deixou invadir por ela de um modo menos doloroso que o de sempre. Pela primeira vez, relembrou seu riso, seu cheiro, imagens dela de além da mágoa. O que ficou de bom, o que não valia a pena esquecer, uma vereda possível para o outro lado da dor.

Chegou em casa tarde da noite, exausto. Caiu na cama, a mulher do rio a seu lado. Não quis deixá-la na varanda. Sabe lá se o maluco vinha atrás dela? Além do quê, pensou já quase em sonho, ele e o doido sabiam: mulher às vezes foge.

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