1927, o ano do musical

por Alexei Henriques

Quando falamos em musical americano, há dois principais meios em que ele é associado: a Broadway e Hollywood. E, para ambos, o ano de 1927 foi de extrema importância.

Desde o final do século XIX Nova York já produzia musicais, mas os primeiros musicais feitos naquela época não tinham muito planejamento nos seus roteiros, dando um foco maior nos atores e atrizes, números de dança e canções populares. O enredo desses musicais funcionava normalmente apenas como um fio condutor para mostrar seus números de música e dança. Eles possuem influência das operetas europeias e vieram de formas de entretenimento americano como o Minstrel Show e o vaudeville.

Mas o musical que é considerado pioneiro, sendo o primeiro a utilizar características como nós conhecemos hoje, com uma maior integração entre as músicas e o roteiro foi o Show Boat, de 1927. Com músicas de Jerome Kern e letras de Oscar Hammerstein II, o musical apresentou um novo conceito que foi aclamado pela audiência, além de conter temas surpreendentes como a miscigenação, se tornando um marco na história dos musicais da Broadway. Essa obra foi produzida pelo Florenz Ziegfeld, um grande empresário do entretenimento da época que já fazia sucesso com as linhas de coros nas Ziegfeld Follies.

O sucesso de Show Boat foi tão grande que levou à criação de novos grandes musicais com o mesmo formato durante a década de 30 como Anything Goes (1934), com músicas de Cole Poter e Of Thee I Sing (1931), com músicas de George Gershwin e letra de seu irmão Ira Gershwin, sendo o primeiro musical a ganhar o prêmio Pulitzer. Outros musicais a serem produzidos nessa época foram The Cradle Will Rock (1937), de Marc Blitzstein e Porgy and Bess (1935), um musical/ópera de George Gershwin. Porgy and Bess, inclusive, possui um estilo de música inovador e seu tema veio com controvérsias, pois tratava sobre a vida de negros americanos com um elenco formado inteiramente por cantores líricos negros.

Já no cinema, o ano de 1927 fez com que a indústria cinematográfica se transformasse para sempre com aquele que é tido como o primeiro filme de longa metragem da história com som gravado: The Jazz Singer (O Cantor de Jazz). Um dos irmãos fundadores dos estúdios da Warner Bros vinha a anos relutando contra a produção de um filme falado, ele dizia “quem vai querer ouvir atores falando?”. Mas, depois de muita insistência dos outros produtores o filme foi lançado fazendo um gigantesco sucesso. Esse não foi o primeiro filme com som gravado, mas no começo, usava-se o som gravado apenas para colocar uma música de fundo, tomando lugar dos pianistas que, antes disso, tocavam ao vivo enquanto o filme era rodado. Com o sucesso do cantor de Jazz toda indústria cinematográfica teve que correr para não ficar para trás, tendo que fazer diversas mudanças em suas estruturas. O filme Singin’ in the Rain (Cantando na Chuva) fala justamente sobre essa transformação que o filme falado provocou no mundo do cinema.

Esse primeiro filme falado da história, o The Jazz Singer, foi um musical e seu enredo, que é bem parecido com história real do ator principal, fala sobre um jovem judeu, estrelado pelo famoso cantor All Jolson, que gostava de cantar jazz, mas o fazia escondido do pai rígido e tradicional que tinha. Para isso, ele se pintava com carvão para se passar por negro. Apesar dessa forma de teatro americana dos Black Faces (cara pintada), tão famosa na época dos menestréis do século XIX, ter diminuído na virada para o século XX, ainda era possível assistir muitos espetáculos com esse formato nos teatros e filmes americanos. Os “cara pintada” só caiu mesmo em desuso na década de 50 com o crescimento do movimento negro americano, que veio a culminar com Martin Luther King. All Jolson, o cantor mais famoso e bem pago dos Estados Unidos daquela época, já fazia espetáculos com a cara pintada antes desse filme e continuou com essa mesma linguagem em outros filmes posteriormente. Porém, All Johson foi visto como uma figura importante para a divulgação e valorização da cultura afro americana. Ele promoveu a primeira peça de teatro da Broadway com um elenco inteiramente de negros escrito pelo afro americano Garland Anderson, exigiu tratamento igual para Cab Calloway, com quem realizou vários duetos no filme The Singing Kid (1936), foi o único homem branco permitido a entrar nos nightclubs do Harlem e foi também amigo do sapateador Bill Robson.

Após o enorme sucesso de “O Cantor de Jazz”, só entre 1927 e 1930 Hollywood produziu em torno de 100 musicais. E as próximas décadas que viriam a seguir ficaram conhecidas como a era de ouro dos musicais de Hollywood. Então, por conta de toda essa transformação, o ano de 1927 é um marco tanto para a história dos musicais da Broadway como para a história, não só dos musicais no cinema, mas para toda a indústria cinematográfica.

Alexei Henriques – Setembro de 2020

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